Pemex e Petrobras vão unir forças na disputa pelo pré-sal mexicano
As companhias petrolíferas nacionais do México e do Brasil concordaram em trabalhar juntas para descobrir, produzir e refinar petróleo, enquanto ambos os gigantes energéticos latino-americanos se esforçam para expandir suas reservas.
Petróleos Mexicanos e Petróleo Brasileiro S.A. assinaram um memorando de entendimento não vinculativo para iniciar a cooperação conjunta em exploração e produção, inclusive em águas rasas e profundas do Golfo do México – e para determinar se existe uma camada pré-sal na região – bem como em refino, gás natural, petroquímica e outras áreas, disseram os presidentes das duas empresas em um evento no Rio de Janeiro.
O acordo reúne as duas maiores petrolíferas da América Latina. Para a Pemex, é uma oportunidade de trabalhar com uma das maiores operadoras de águas profundas do mundo, enquanto enfrenta dívidas enormes, queda na produção e a reputação de ser uma das produtoras de petróleo menos eficientes do planeta. A Petrobras, por sua vez, busca novas áreas para perfuração além do Brasil, tentando garantir reservas para as próximas décadas.
O acordo dará início a uma maior colaboração na exploração dos recursos de águas profundas do México, em grande parte inexplorados, embora a exploração não se limite ao Golfo do México, afirmou a presidente-executiva da Petrobras, Magda Chambriard.
Outras oportunidades podem existir em águas rasas, no aumento da produção de petróleo pesado e superpesado dos campos petrolíferos maduros do México e no gás natural, afirmou o presidente-executivo da Pemex, Juan Carlos Carpio, no evento. As empresas também irão explorar a existência de uma camada de petróleo pré-sal no Golfo do México, acrescentou.
No Brasil, os principais campos do pré-sal, que entraram em operação na década de 2010, fornecem cerca de 80% da produção do país.
As águas profundas e ultraprofundas do Golfo do México permanecem em grande parte inexploradas, o que as torna uma fronteira promissora para a Petrobras, segundo o geólogo Pedro Zalan. Áreas costeiras como a Baía de Campeche contêm sal e justificam uma exploração mais aprofundada, afirmou o consultor, que trabalhou 34 anos na Petrobras.
A Pemex também está empenhada em transformar o acordo em oportunidades concretas e compromissos tangíveis para investimentos conjuntos, à medida que as empresas buscam maneiras de se unirem em refino, petroquímica, fertilizantes, processamento de gás, energia limpa e segurança industrial, disse Carpio.
A ideia de uma parceria entre as grandes petrolíferas estatais surgiu no início deste ano, depois que o presidente brasileiro sugeriu que os países poderiam explorar em conjunto os recursos de águas profundas do México, em grande parte inexplorados. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discutiu a cooperação energética com sua homóloga mexicana, Claudia Sheinbaum, em uma videoconferência no início deste mês, enquanto os líderes das duas maiores economias da América Latina buscam fortalecer os laços comerciais.
A Pemex tem buscado parcerias para impulsionar a produção de petróleo bruto em seus campos petrolíferos antigos, aumentar a produção de gás e explorar novos ativos. A Pemex tem enfrentado dificuldades financeiras nos últimos anos, com uma dívida de aproximadamente US$ 80 bilhões, um negócio de refino deficitário, ineficiências, explosões, derramamentos de petróleo e lucros em queda.
Os problemas de produção da Pemex decorrem, em parte, do fato de que muitos de seus principais ativos offshore, como Cantarell, um campo de águas rasas outrora gigantesco que, em seu auge, produzia mais de dois milhões de barris por dia, começaram a se esgotar nos últimos anos. A produção na formação Ku-Maloob Zap, de 60.000 barris por dia, também está em declínio, enquanto o campo de Zama, um projeto de 750 milhões de barris em desenvolvimento com as parceiras Wintershell Dea e Harbour Energy, ainda não entrou em operação.
Por sua vez, a Petrobras busca novas descobertas para expandir seu portfólio internacional de exploração e produção e prolongar o boom do petróleo brasileiro , impulsionado pela descoberta, em 2006, da gigantesca bacia do pré-sal. Essa descoberta ajudou o Brasil a se tornar o maior exportador de energia da América Latina, com o petróleo ultrapassando a soja, a carne bovina, o ferro e outras commodities como o principal produto de exportação do país até 2024.
A Pemex espera aproveitar a experiência que a Petrobras desenvolveu na extração de petróleo bruto das reservas de águas ultraprofundas do Brasil, localizadas a 5.000 metros (3,1 milhas) ou mais abaixo do nível do mar. É uma proposta bastante atraente para a Pemex, mesmo que ainda existam grandes dúvidas sobre como o acordo será estruturado e qual das partes financiará a exploração, afirmou John Padilla, fundador e diretor da consultoria Paramos Energy, em entrevista concedida em 5 de junho.
“Os detalhes importam, e a questão é se o governo mexicano estará disposto a investir uma parcela significativa do capital de risco necessário”, disse Padilla, acrescentando que explorações offshore pioneiras semelhantes geralmente exigem financiamento de dezenas a centenas de milhões de dólares. “Presumivelmente, a Pemex não vai investir esse dinheiro, o que implicaria que a Petrobras financiaria a grande maioria desses esforços.”
A Petrobras enfrentou dificuldades em expansões anteriores na América Latina neste século. Teve campos de gás expropriados na Bolívia e, na Venezuela, reduziu suas operações e acabou se retirando após a deterioração do ambiente de investimento e o aumento das condições fiscais.
Embora cerca de 2 milhões de barris por dia sejam produzidos em campos de águas profundas nas águas territoriais americanas do Golfo do México, no lado mexicano ainda não há produção comercial proveniente desses projetos. O antecessor de Sheinbaum, o presidente Andrés Manuel López Obrador, interrompeu os leilões competitivos de petróleo que haviam começado a oferecer campos offshore há uma década.
Chambriard afirmou que ambas as empresas, responsáveis pela segurança energética nacional, têm ficado para trás na construção de portfólios de exploração robustos nos últimos anos. O lado mexicano do Golfo representa uma oportunidade, e as duas empresas poderiam até mesmo considerar oportunidades na África e no Brasil, disse ela.
“Será que todo o petróleo do Golfo do México acabou apenas no lado americano?”, questionou ela na terça-feira. “Precisamos analisar o lado mexicano do Golfo sob uma nova perspectiva e com novas tecnologias.”
Matéria publicada na Bloomberg, no dia 23/06/2026, às 13:30 (horário de Brasília)