Ataque dos EUA à Venezuela podem deixar os preços dos combustíveis mais baratos no Brasil?

Às 03h de sábado (03), o Exército dos Estados Unidos iniciou um ataque ao território venezuelano que resultou na destruição de bases militares estratégicas e, poucas horas depois, na captura do presidente Nicolás Maduro.

Em coletiva de imprensa, o presidente americano, Donald Trump, celebrou o sucesso da operação e afirmou que os EUA irão “permanecer em território venezuelano até que uma transição adequada possa acontecer”, indicando que Washington assumirá, na prática, a administração do país durante esse período.

Ao comentar as reservas de petróleo da Venezuela, as maiores comprovadas do mundo, Trump declarou: “Nossas gigantescas companhias petrolíferas americanas, as maiores do mundo, vão entrar, gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura petrolífera, que está em péssimo estado, e começar a gerar lucro para o país”.

Mas como esse movimento afeta o preço do combustível no Brasil?


Impacto global: a sobreoferta predomina

O mercado internacional de petróleo reagiu com relativa calma ao ataque. O barril abriu a semana seguinte ao episódio operando de forma estável.

Na referência Brent, o fechamento da sexta-feira (02), véspera do ataque, foi de US$ 60,33. Nesta segunda-feira (05), o contrato é negociado em torno de US$ 61,00.

A reação contida dos preços reflete dois fatores principais: a participação limitada da Venezuela na produção global de petróleo e um cenário já consolidado de sobreoferta no mercado internacional.

Apesar de deter reservas abundantes, a Venezuela enfrenta há anos graves problemas de infraestrutura, além de sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, fatores que restringem severamente sua capacidade produtiva. Atualmente, o país produz cerca de 900 mil barris por dia, o equivalente a aproximadamente 1% da produção global.

Além disso, a maior parte das projeções para o mercado de petróleo em 2026 aponta para um ambiente de excesso de oferta, impulsionado por crescimento contínuo da produção e uma demanda global considerada fraca.

Incrementos graduais na produção por parte da Opep ao longo de 2025 devem garantir ampla disponibilidade de petróleo em 2026, mesmo que o cartel decida interromper esses aumentos ainda este ano, avaliam analistas.


Combustível mais barato no Brasil após o ataque?

As declarações de Trump de que os EUA passarão a administrar a produção de petróleo na Venezuela abrem espaço para um novo cenário: um aumento ainda maior da oferta global.

Caso o plano do governo americano avance e seja bem-sucedido na recuperação da infraestrutura venezuelana, o país poderá reassumir um papel mais relevante na produção mundial de petróleo, compatível com o tamanho de suas reservas.

Um aumento significativo da participação da Venezuela poderia intensificar a sobreoferta global, pressionando os preços do barril para patamares ainda mais baixos.

Para o consumidor brasileiro, esse cenário tende a ser favorável. Tanto por conta de uma redução no preço dos derivados de petróleo em decorrência do barril mais barato, quanto por um aumento na oferta de produto vinda do Golfo do México, origem da maior parte das importações brasileiras.

Uma vitória americana sobre a China

Um efeito mais imediato do ataque deve ser o redirecionamento das exportações de petróleo da Venezuela de volta para os Estados Unidos — e para longe da China.

Os chineses se tornaram os principais importadores do petróleo venezuelano após as sanções impostas por Trump à indústria energética do país em 2019. Segundo dados da empresa de análise Kpler, a China respondeu por mais da metade das exportações de petróleo bruto da Venezuela, que totalizaram 768 mil barris por dia no ano passado.

No sábado (03), Trump sugeriu que a China continuará recebendo petróleo venezuelano sob um governo apoiado pelos EUA em Caracas, mas indicou que esse volume deverá ser limitado.

De acordo com estimativas da Reuters, cerca de dois terços das importações chinesas de petróleo venezuelano são destinadas a refinarias independentes — conhecidas como teapots — que aceitam comprar o produto com grandes descontos, mesmo sob sanções.

Com a eventual suspensão dessas restrições, o petróleo venezuelano passaria a ser vendido a preços internacionais, eliminando o incentivo econômico para esse tipo de compra.

Nesse contexto, a tendência é clara: os EUA representam um mercado mais natural para o petróleo venezuelano do que a China, sobretudo pela proximidade geográfica, que reduz significativamente os custos de frete.

Segundo estimativas da Reuters, as importações americanas de petróleo venezuelano poderiam aumentar em mais de 200 mil barris por dia poucos meses após essa mudança, mais que dobrando o volume comprado pelos EUA com base nos níveis de exportação de 2025.


Equilíbrio delicado

A leitura predominante do mercado parte do pressuposto de não escalonamento do conflito. Ou seja, considera-se que os eventos recentes permanecem circunscritos a uma ação pontual, sem desdobramentos militares ou logísticos capazes de afetar fluxos globais de energia. Esse enquadramento explica por que, apesar da gravidade política do episódio, os preços reagiram de forma contida e sem ruptura abrupta.

Nesse cenário-base, a operação é vista como um movimento cirúrgico, suficiente para reduzir incertezas imediatas sem comprometer a produção ou o escoamento de petróleo na região. A ausência de sanções adicionais, bloqueios marítimos ou confrontos diretos sustenta a percepção de que a oferta global segue relativamente intacta. O mercado, portanto, precifica risco político, mas não risco sistêmico.

A análise também assume que eventuais respostas venezuelanas permanecem no campo retórico ou diplomático, sem capacidade operacional para afetar rotas estratégicas. O Mar do Caribe, embora sensível do ponto de vista geopolítico, continuaria funcionando normalmente, preservando cadeias logísticas relevantes para o Brasil. Sem interrupções, custos de frete e prêmios de seguro tendem a permanecer estáveis.

Esse ambiente favorece, ao menos no curto prazo, a continuidade de preços mais comportados — e, em alguns casos, pressionados para baixo. A leitura é que a remoção de um fator de incerteza pesa mais do que o risco residual de novos episódios. Quando o pior cenário deixa de ser provável, o mercado ajusta expectativas de forma assimétrica, muitas vezes ampliando movimentos de queda.

Ainda assim, trata-se de um equilíbrio delicado. A análise não ignora riscos, mas os mantém fora do cenário central. Para o grande consumidor brasileiro de combustíveis, a mensagem é clara: os benefícios atuais estão ancorados na hipótese de contenção. Qualquer sinal de ruptura dessa narrativa pode reprecificar o mercado rapidamente — transformando conforto em volatilidade com a mesma velocidade.


Panorama geral

A análise do comportamento dos preços após os ataques mostra que a operação militar em Caracas não provocou impactos relevantes no mercado de petróleo. No curto prazo, o cenário segue sendo de estabilidade.

Se o plano de Donald Trump se concretizar, o principal efeito será um redesenho gradual do mapa global de refino e exportação de petróleo, com uma Venezuela mais integrada ao mercado internacional, possivelmente sob liderança americana.

Ainda assim, esse processo tende a ser lento. As petrolíferas dos EUA terão de superar desafios políticos, assumir riscos elevados e investir bilhões de dólares na reconstrução de uma infraestrutura historicamente deteriorada — um esforço que dificilmente produzirá resultados imediatos.

O cenário atual aponta para uma manutenção, ou até mesmo uma redução, nos preços dos combustíveis no Brasil. A situação na Venezuela tem o potencial de ratificar esse horizonte baixista de preços, favorecendo futuros cortes.

Na data de redação dessa matéria, o Preço de Paridade Internacional (PPI) da Raion Consultoria já indica a possibilidade de um corte no preço do diesel de até R$ 0,20.

Matéria de autoria da equipe de comunicação da Raion Consultoria.