Governo já vê impacto do diesel no transporte da safra e monitora efeitos sobre preço dos alimentos

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva já começa a identificar impactos do aumento do diesel no transporte da safra, em meio às tensões internacionais. A avaliação, segundo interlocutores envolvidos no acompanhamento do tema, é que os efeitos aparecem primeiro na logística e podem se espalhar para os preços de alimentos.

O principal foco, neste momento, está no milho. O produto é usado na ração animal e tem efeito direto sobre itens como carne, leite e ovos. Se o preço do produto sobe, o da proteína animal também aumenta.

De acordo com integrantes do governo federal, há casos de contratos de transporte que precisaram ser revistos, após alta de custos. Conforme relatos que chegam a Brasília, empresas contratadas para o escoamento do produto informaram que não conseguiriam manter o serviço nos valores acordados. O aumento está diretamente ligado à alta do combustível.

Por ora, o monitoramento está concentrado em evitar efeitos sobre a cadeia de alimentos, especialmente a proteína animal, que depende diretamente do custo do milho. A avaliação interna é que a situação ainda não exige medidas mais amplas, mas já demanda atenção diante do risco de repasse ao consumidor.

A alta do diesel começa a pressionar o custo do frete no país, especialmente em um momento de pico da atividade no campo. Com a colheita da primeira safra e o plantio da segunda, o uso de máquinas e o transporte da produção se intensificam, elevando a demanda por combustível.

No Sul do país, onde a produção de arroz é relevante, o cenário preocupa produtores e cooperativas. A cultura depende de operações contínuas de colheita e escoamento, o que amplia a exposição ao custo do transporte.

Diante disso, o aumento do frete se soma à pressão sobre margens e pode afetar a logística da safra, em um momento em que o setor precisa manter o fluxo regular de produção e abastecimento.

O diretor técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Bruno Lucchi, disse que o aumento do preço do diesel e a alta dos fertilizantes já começam a pressionar o campo brasileiro em meio às tensões internacionais. Segundo ele, o impacto é imediato sobre a produção e pode se agravar nos próximos meses.

— O que mais preocupa os produtores rurais é o preço do diesel, em função da intensidade de uso das máquinas e do escoamento da safra que ocorre nesse momento — afirmou.

Lucchi explica que o período é crítico para o campo. O país está em plena colheita da primeira safra e no plantio da segunda, especialmente de milho, o que eleva a demanda por combustível.

— O produtor não tem como escolher não colher, não tem como escolher não plantar. Se perder essa janela, pode ter impacto severo na produção e na produtividade — disse.

Além da alta, há relatos de dificuldade de abastecimento. Segundo ele, produtores têm recebido apenas parte do volume de diesel encomendado.

— Muitos relatam que o diesel tem chegado em torno de um terço ou metade do que foi comprado. Isso tem causado uma preocupação muito grande — afirmou.

— O impacto já se reflete em algumas regiões. Estados do Sul chegaram a decretar situação de emergência, diante da dependência da atividade agrícola e da necessidade de manter a colheita — ressaltou.

Procurado pelo GLOBO, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) esclareceu que a gestão de combustíveis e a definição de cotas ou políticas de comercialização são atribuições do Ministério de Minas e Energia (MME) e da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Já a gestão da logística está sob responsabilidade do Ministério dos Transportes.

“Vale ressaltar, contudo, que o Mapa acompanha permanentemente as condições logísticas para o escoamento da produção agropecuária brasileira, especialmente em períodos de colheita e maior movimentação de cargas no país e mantém diálogo direto e contínuo com os órgãos citados”, destacou a pasta.

Segundo o Mapa, até o momento, não há indicação de desabastecimento generalizado de diesel no país. “Ainda assim, o governo federal tem adotado medidas para assegurar a normalidade do mercado e mitigar pressões sobre os preços dos combustíveis, garantindo as condições necessárias para o transporte da produção”.

A pasta reiterou que permanece em diálogo com produtores, cooperativas, transportadores e demais agentes da cadeia logística, acompanhando eventuais impactos sobre a colheita e o escoamento da safra, em articulação com os demais órgãos do Governo Federal, com o objetivo de assegurar a regularidade do abastecimento e a eficiência da logística do agronegócio brasileiro.

Em um evento em Mato Grosso, nesta segunda-feira, o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, afirmou que o agronegócio brasileiro tem capacidade de responder às crises recentes, mesmo diante da pressão sobre custos de produção.

— O setor passa por dificuldades, com crise de fertilizantes e combustíveis, mas tem capacidade de encontrar soluções para o crescimento sustentável — disse.

Em meio à alta do diesel, Fávaro destacou o papel dos biocombustíveis para reduzir a dependência externa e amortecer impactos no mercado interno.

— Imagine o Brasil, que ainda depende de 35% da importação de diesel, se não tivesse os 15% de biodiesel adicionados à mistura — afirmou.

Segundo ele, a política de combustíveis renováveis tem ajudado a garantir abastecimento e estabilidade de preços. O ministro também ressaltou os efeitos indiretos da cadeia da soja sobre o custo dos alimentos.

Matéria publicada no portal da Fecombustíveis, no dia 24/03/2026, às 06:00 (horário de Brasília)