O “Dia da Libertação” chegou. Como o “tarifaço” de Trump impactará o mercado de combustíveis no Brasil?

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta quarta-feira (02/04) um novo pacote de tarifas comerciais direcionado a 24 países e à União Europeia. E o Brasil não ficou de fora.

O “tarifaço”, anunciado no chamado “Dia da Libertação” pelo próprio presidente, estabeleceu sobretaxas recíprocas a produtos importados de países que impõem barreiras consideradas desproporcionais ao comércio americano.. As tarifas variam de 10% a 49%, sendo que o Brasil se encontra no patamar mínimo.

“Hoje é o Dia da Libertação. Nossos contribuintes foram enganados por mais de 50 anos, mas isso não vai mais acontecer”, declarou Trump.

Mas como essa medida impactará o mercado de combustíveis no Brasil?

Impacto direto: praticamente nulo

A boa notícia é que, ao menos por ora, a Casa Branca optou por isentar o petróleo, o gás natural e os derivados de petróleo das novas tarifas. A decisão reflete uma estratégia de proteção da própria indústria petrolífera americana, que temia que novas tarifas desestabilizassem os fluxos comerciais e elevassem os custos energéticos.

Dessa forma, o impacto direto sobre o mercado brasileiro de combustíveis deve ser irrisório após a “blitz” tarifária. Mas os efeitos indiretos contam outra história.

Impacto indireto: volatilidade global e efeitos colaterais no Brasil

Sempre que a maior economia do mundo impõe barreiras comerciais, a volatilidade nos mercados financeiros é imediata. E desta vez não foi diferente. Após o anúncio, o preço do barril de petróleo acumula perdas em torno de 14% nos pregões após o anúncio das tarifas, atingindo os US$ 64 – seu menor valor desde o auge da pandemia do coronavírus em 2021. O câmbio registrou forte queda na quinta-feira (03/04), porém recupera suas perdas na sexta-feira (04/04), após a China revidar tarifas de Trump com taxas de 34% sobre todos os produtos importados dos EUA.

Dois fatores se destacam nesse cenário e podem impactar o mercado brasileiro de combustíveis:

  • Inflação nos EUA
  • Variações cambiais

Inflação americana e seus reflexos globais

A reação dos países afetados pelo pacote de tarifas foi imediata: medidas de retaliação foram anunciadas, incluindo novas taxas sobre produtos americanos. Essas contramedidas, em geral, afetam o custo das exportações dos EUA, contribuindo para um efeito cascata na economia global.

Nos Estados Unidos, a elevação dos custos de importação tendem a tornar a inflação mais resiliente, influenciando na tomada de decisão do Federal Reserve (Fed) para manutenção de uma política monetária mais restritiva. Ou seja, os juros americanos podem permanecer elevados por mais tempo, tornando o cenário financeiro global mais desafiador.

Da mesma forma, a imposição de tarifas comerciais pode desencadear um processo de redução da atividade econômica global, tendo como consequência, um menor consumo de petróleo e seus derivados. Este cenário macroeconômico adverso, que alguns analistas já colocaram nos seus radares como risco de recessão, conduz as cotações do barril do petróleo para a faixa inferior aos 70 dólares por barril.

O piso atual de preço se iguala às marcas registradas em setembro/24, por piora nas projeções de mercado da OPEP+, que apontavam um enfraquecimento da demanda global por petróleo, e em março/2025, após uma reação do mercado às tarifas impostas por Trump as importações da China, Canadá e México, além da decisão da OPEP+ de manter os planos de começar a reduzir os cortes na produção em abril/2025, que provocaram a desvalorização das cotações do petróleo bruto globalmente.

Variações cambiais e os custos para o Brasil

A política de juros altos nos EUA encarece o custo do crédito globalmente e reduz a liquidez no mercado internacional. Para o Brasil, isso significa um real mais fraco e um ambiente financeiro mais restritivo.

A desvalorização da moeda brasileira tem impactos diretos no setor de combustíveis, pois encarece as importações de derivados de petróleo e gera pressão sobre os preços domésticos. Além disso, o custo do financiamento em dólar se torna mais alto, limitando a capacidade de investimentos no setor.

O resultado? Um cenário de “duplo aperto”:

  • Custo mais alto para importações: A desvalorização do real encarece a aquisição de combustíveis do exterior, impactando distribuidoras e consumidores. A considerar, por exemplo, que o Brasil importa mensalmente na faixa de 1 bilhão de litros de óleo diesel para complementar a oferta interna, o que representa na faixa de 25% de dispêndio com importações.
  • Crédito mais caro: A alta dos juros globais restringe o acesso a financiamentos e investimentos, afetando diretamente a economia real.

Um possível alívio: queda do dólar e dos preços do petróleo

Apesar dos desafios, o mercado de combustíveis no Brasil pode encontrar um alívio no curto prazo. A recente queda do dólar e dos preços do petróleo “renovou” a defasagem entre as referências internacionais e os valores praticados no mercado doméstico.

Isto quer dizer que, quando do último corte de preços promovido pela Petrobras (01/04) – 17 centavos sobre o óleo diesel em suas refinarias – o preço do diesel no Brasil voltou a se equiparar ao patamar internacional. No entanto, com as movimentações recentes do mercado, a diferença voltou a aumentar, tornando possível um novo corte nos preços do diesel. Esse fator, aliado à isenção dos combustíveis do “tarifaço”, pode representar um cenário favorável para o setor.

Então, o que esperar?

Embora o novo pacote de tarifas dos EUA não atinja diretamente o setor de combustíveis, seus efeitos indiretos podem impactar a economia brasileira de diversas formas. A pressão inflacionária nos Estados Unidos, o aperto monetário e a volatilidade cambial são fatores que precisam ser monitorados de perto, pois podem influenciar o custo dos combustíveis e a dinâmica do mercado a médio e longo prazo.

Por outro lado, a atual configuração do mercado abre espaço para possíveis ajustes nos preços internos dos combustíveis, o que pode beneficiar consumidores e empresas. Mas é importante manter expectativas realistas: a Petrobras historicamente não reage de imediato a oscilações do mercado e tende a esperar um cenário de maior estabilidade antes de realizar mudanças significativas. Além disso, conforme declarou recentemente a presidente da estatal, Magda Chambriard, as reuniões do conselho para definir a precificação dos combustíveis ocorrem apenas a cada 15 dias, o que reduz a possibilidade de ajustes imediatos.

Portanto, na análise da Raion Consultoria, apesar das incertezas do cenário internacional, há perspectivas positivas para o mercado de combustíveis no Brasil no curto prazo, sob a estrita ótica voltada para preços. Mesmo que a volatilidade global exija cautela e acompanhamento constante para antecipar possíveis reações do setor.

Matéria de autoria da equipe de comunicação da Raion Consultoria.