Trump anuncia tarifa de 10% para o Brasil; taxas chegam a 49% para outros países

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta quarta-feira (2) uma tarifa de 10% sobre produtos brasileiros, como parte de seu aguardado pacote de tarifas comerciais, batizado de “Dia da Libertação”, que estabelece sobretaxas recíprocas a produtos importados de todos os países com barreiras consideradas desproporcionais. A medida marca uma virada radical na política comercial americana e eleva a incerteza sobre os rumos da economia global.

As tarifas variam conforme o país, e chegam a até 49% no caso do Camboja, que cobraria dos EUA tarifas de 97%. A conta, defende o governo americano, inclui manipulação de moeda e barreiras comerciais. As tarifas começaram a valer a partir da meia noite desta quinta-feira (3).

O Brasil sofrerá sobretaxa de 10%, a menor entre todas as alíquotas impostas, junto com Singapura e Reino Unido. Segundo simulação do Bradesco, uma tarifa como essa se encaixaria em um cenário de impacto na economia brasileira na ordem de US$ 2 bilhões sobre exportações brasileiras.

Segundo informações da BBC, a Casa Branca esclareceu após o anúncio que os números de tarifas apresentados por Trump incluem taxas recíprocas e a tarifa base de 10%. Países aos quais uma sobretaxa já foi imposta anteriormente, portanto, como Canadá e China, terão um percentual adicional (veja todas as tarifas em uma tabela abaixo).

“Hoje é o Dia da Libertação”, disse Trump em discurso, acrescentando que a data será lembrada como o dia em que a indústria americana “renasceu”. “Nossos contribuintes foram enganados por mais de 50 anos, mas isso não vai mais acontecer”, falou.

Trump criticou tarifas de importação aplicadas por outros países a produtos dos EUA, como os 10% cobrados pela União Europeia sobre veículos americanos. No entanto, ele não mencionou as tarifas elevadas dos próprios EUA, como os 25% sobre caminhões estrangeiros — em contraste com os 2,5% aplicados aos carros europeus.

O governo americano já anunciou uma tarifa de 25% sobre carros e autopeças importados, que entrou em vigor após a meia-noite de quinta-feira (3).

Veja as tarifas recíprocas anunciadas por Trump

PaísTarifa cobrada dos EUA* (%)Tarifa recíproca (%)
Reino Unido1010
Brasil1010
Cingapura1010
Chile1010
Austrália1010
Turquia1010
Colômbia1010
Israel3317
Filipinas3417
União Europeia3920
Japão4624
Malásia4724
Coreia do Sul5025
Índia5226
Paquistão5829
África do Sul6030
Suíça6131
Taiwan6432
Indonésia6432
China6734
Tailândia7236
Bangladesh7437
Sri Lanka8844
Vietnã9046
Camboja9749

O que são tarifas recíprocas?

O conceito de “tarifa recíproca” parte do princípio de equiparar os encargos: se o país A cobra 15% sobre um produto americano, os EUA aplicarão os mesmos 15% sobre o produto equivalente vindo desse país. No entanto, essa lógica ignora aspectos técnicos do comércio internacional e desconsidera compromissos firmados em acordos multilaterais. Para muitos analistas, esse modelo abre espaço para discricionariedade política e acirramento de disputas comerciais.

Na tabela divulgada pelo governo Trump, os países foram organizados conforme o nível de barreiras comerciais que impõem aos Estados Unidos. A metodologia adotada considerou três fatores: a diferença entre as tarifas de importação praticadas pelos EUA e por seus parceiros, a carga tributária interna de cada país e a presença de barreiras não-tarifárias.

Com base nesses critérios, Washington determinou a aplicação de uma sobretaxa correspondente à metade do chamado “nível de proteção” identificado. A abordagem, no entanto, tem sido alvo de críticas de especialistas, que apontam a imprecisão ao misturar tributos internos com tarifas de importação. Outro ponto controverso é a dificuldade em quantificar barreiras não-tarifárias, como exigências ambientais ou regras de propriedade intelectual.

No caso do Brasil, o nível de proteção calculado foi de 10%. Como esse é o piso estabelecido pelo decreto, o país será alvo de uma sobretaxa de 10% sobre suas exportações aos EUA.

Quais são os impactos esperados?

De forma direta, o impacto sobre o comércio brasileiro deve ser relativamente limitado no curto prazo, porque os setores brasileiros mais expostos — como aeronaves, aço e petróleo — não estão entre os principais alvos neste primeiro momento. 

A secretária do Agro de Trump tem visita marcada para o Brasil em breve para discutir maior equilíbrio da balança comercial de produtos agrícolas entre os dois países.

Otaviano Canuto (ex-FMI e Banco Mundial) alerta também para efeitos do canal financeiro no brasil. Isso porque as tarifas devem elevar a inflação nos EUA, o que pode forçar o Federal Reserve (Fed) a manter juros mais altos por mais tempo. Isso tende a pressionar o real, encarecer o crédito e limitar o espaço para cortes de juros no Brasil.

Com isso, mesmo sem impacto direto nas exportações, o país sentiria os efeitos por meio do encarecimento do financiamento externo, desvalorização cambial e aumento da inflação doméstica.

Matéria publicada no portal InfoMoney, no dia 02/04/2025, às 17:48 (horário de Brasília)