Trump considera lançar guerra ao Irã, em aposta mais arriscada do 2º mandato

Após semanas pressionando o Irã a aceitar um acordo, Donald Trump publicou na última segunda-feira um vídeo no qual o apresentador Mark Levin, da rede de TV americana Fox News, argumenta que negociar com o Irã agora não faz mais sentido.

O vídeo revela a crescente frustração do presidente dos Estados Unidos com sua saraivada de ameaças, que até agora não conseguiu arrancar nenhuma concessão real do regime dos aiatolás na República Islâmica.

Também reflete o dilema em que o presidente americano se encontra agora, um momento em que ele cogita a maior aposta de política externa de seu segundo mandato: um ataque em larga escala contra o Irã.

“Acho que a realidade é que o presidente encurralou a si próprio”, disse Aaron David Miller, especialista em Oriente Médio no centro de estudos Carnegie Endowment for International Peace, que já trabalhou como negociador de paz entre os Estados Unidos e o Oriente Médio.

De acordo com Miller, Trump colocou-se em uma situação difícil ao prometer ajuda aos manifestantes no Irã e mobilizar uma grande série de recursos militares a uma distância suficiente para atacar Teerã.

A operação bem-sucedida dos EUA para tirar Nicolás Maduro do poder na Venezuela tem deixado Trump confiante demais a respeito de suas chances no Irã.

“Ele se colocou em uma situação em que, a menos que consiga extrair uma concessão considerável dos iranianos para evitar uma guerra que ele não quer, vai acabar sendo forçado a entrar em uma”, disse Miller. “Esta é uma crise criada por ele mesmo.”

O que começou como uma promessa de “resgatar” os manifestantes iranianos da repressão mortal do governo em dezembro e janeiro agora se tornou uma pressão tática – mesmo com os motivos de Trump para a guerra ainda estando incertos.

Nos últimos dois meses, Trump mencionou “um carrossel de justificativas” para atacar o Irã, disse Rosemary Kelanic, cientista política e especialista em Oriente Médio do Defense Priorities, um centro de estudos em Washington cuja linha é contrária ao intervencionismo americano em outros países.

As motivações variaram desde a necessidade de desmantelar um programa nuclear, que Trump havia dito já ter sido “aniquilado”, até incapacitar militantes aliados dos iranianos, que autoridades dos EUA e de Israel também haviam dito já ter sido drasticamente enfraquecidos.

Outro motivo seria inutilizar o arsenal de mísseis balísticos do Irã – embora eles não tenham alcance para atingir o território dos EUA – apenas bases americanas no Oriente Médio. E durante determinado período em janeiro, a justificativa, manifestada na plataforma social on-line Truth Social, era a promessa aos manifestantes que eram alvo da repressão de que “A AJUDA ESTÁ A CAMINHO”.

“Há, creio eu, enormes questionamentos sobre por que os EUA estão fazendo isso em primeiro lugar”, disse a cientista política e especialista em Oriente Médio do Defense Priorities.

Os linhas-duras no entorno de Trump, como Levin, deixaram claro que o objetivo deveria ser mudança de regime no Irã e que a Casa Branca deveria agir agora, enquanto Teerã estaria “mais fraca do que nunca”.

Os EUA não podem deixar “para a próxima geração” a tarefa de agir. “Este regime precisa ser eliminado”, disse Levin, conclamando Trump em seu programa na Fox News, cujo vídeo o presidente compartilhou on-line.

Nas últimas semanas, o presidente mobilizou a maior concentração de forças militares dos EUA no Oriente Médio desde a guerra do Iraque. Na segunda-feira, um segundo porta-aviões nas proximidades, o USS Gerald R. Ford, o maior da Marinha americana, com sua frota auxiliar de combate, foi avistado na costa de Creta, no Mediterrâneo oriental.

Apesar do aumento na concentração militar e das repetidas ameaças de Trump de usar essas forças no Oriente Médio – inclusive para lançar apenas possíveis ataques limitados -, o Irã ainda não aceitou qualquer tipo de acordo, para perplexidade de autoridades americanas.

“[Trump está] curioso […] por que, diante desse tipo de pressão, com o volume de poder marítimo, poder naval que temos lá, eles não vieram até nós e disseram, ‘Declaramos que não queremos uma arma [nuclear]’?”, disse o enviado especial de Trump, Steve Witkoff, no sábado em entrevista à Fox News.

Witkoff também declarou que o Irã está “provavelmente a uma semana de ter material em grau industrial para fabricar bombas [atômicas]”, embora especialistas do setor discordem.

Trump já deixou claro que o Irã não pode ter armas nucleares nem a capacidade de construí-las, e que eles não podem enriquecer urânio. “O presidente gostaria de ver um acordo negociado, mas deixou claro que ou fazemos um acordo ou teremos de fazer algo muito duro, como da última vez”, disse um funcionário da Casa Branca.

Apesar da rápida escalada das tensões, no entanto, Trump também luta contra os riscos que novos ataques ou uma guerra total contra o Irã trariam.

O presidente americano tem sido avisado por especialistas regionais e autoridades do governo de que, em qualquer retaliação, o Irã provavelmente teria como alvo as forças militares dos EUA, os países aliados e a infraestrutura energética na região.

Trump desmentiu na segunda-feira as notícias de que o general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, teria argumentado contra atacar o Irã.

“Tudo o que foi escrito sobre uma possível guerra com o Irã foi escrito de forma incorreta, e isso foi intencional”, escreveu Trump em postagem na Truth Social. “Sou eu quem toma a decisão, preferiria ter um acordo a não ter, mas, se não fizermos um Acordo, será um dia muito ruim para aquele país e, muito tristemente, para seu povo.”

O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, também conclamou o Irã a chegar a algum acordo, mas disse que a decisão sobre qualquer ataque caberia, em última instância, a Trump. “Nosso trabalho é oferecer opções e teremos opções para o presidente caso o Irã decida não aceitar um acordo”, disse. “Tudo está sobre a mesa, é uma decisão do presidente.

Por outro lado, a inteligência de Israel concluiu que, mesmo com a chegada iminente do USS Gerald R. Ford ao Oriente Médio ainda nesta semana, os EUA têm capacidade militar para sustentar apenas de quatro a cinco dias de ataque aéreo intenso ou uma semana de ataques de menor intensidade, disse um funcionário da área de inteligência israelense ao Financial Time.

Baixas americanas também trariam o risco de reações contrárias no movimento “Maga” (acrônimo em inglês de um dos lemas de Trump, “Tornar os EUA Grandes de Novo”) do presidente americano e entre os eleitores como um todo, que em geral têm mais receios quanto a uma guerra do que quanto à inação em relação ao Irã.

Cerca de 25% dos republicanos dizem se opor a uma intervenção militar dos EUA no Irã nas circunstâncias atuais, enquanto 40% a apoiam, segundo uma nova pesquisa da Universidade de Maryland. A grande maioria dos democratas diz ser contra.

“Quem quer isso? Ninguém quer isso”, disse Miller, do Carnegie Endowment. “Estamos caminhando como sonâmbulos para uma guerra, tentando encontrar uma estratégia.”

Trump tem sido encorajado por seu sucesso na Venezuela e pelas resposta amenas de Teerã após iniciativas que seus assessores também consideravam arriscadas, segundo analistas, como a retirada do pacto nuclear com o Irã em 2018, o assassinato pelos EUA do comandante da Guarda Revolucionária Qassem Soleimani em 2020 e o bombardeio em 2025 de instalaç

Em cada uma dessas ocasiões, o presidente americano apostou alto contra o Irã e se sentiu justificado em suas decisões, segundo Karim Sadjadpour, especialista em Irã e política dos EUA no Carnegie Endowment.

“Para ele, os alertas severos de que isso desencadearia uma guerra regional se mostraram exagerados, e o Irã mostrou ser um tigre de papel. Não acho que o desfecho ideal [na cabeça] dele seja um confronto militar, mas, se ele escolher esse rumo, provavelmente gosta de quais são suas chances [de sucesso].”

Ontem, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, disse que um acordo com os EUA está “ao alcance”, mas “apenas se a diplomacia for priorizada. O chanceler deve se reunir com Witkoff e o genro de Trump, Jared Kusher, para uma nova rodada de negociação na quinta-feira, em Genebra.

Antes, o chanceler iraniano, Majid Takht-Ravanchi, afirmou que o país estava pronto para tomar as medidas necessárias para chegar a um acordo. “Entraremos na sala de negociações em Genebra com total honestidade e boa fé”, afirmou ele, segundo a mídia estatal do país.

Por sua vez, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, respondeu que a diplomacia é sempre a primeira opção de Trump, mas ressaltou que o presidente americano está disposto a usar a força, se necessário.

Matéria publicada no Valor Econômico, no dia 25/02/2026, às 05:02 (horário de Brasília)