Veja tudo que você precisa saber da captura de Maduro pelos EUA

A captura de Nicolás Maduro por forças americanas, no último sábado (3), abriu uma crise geopolítica de grandes proporções. A operação, autorizada pelo presidente Donald Trump, combina ação militar direta, processos judiciais por narcotráfico e uma disputa explícita pelo futuro político e energético da Venezuela. A seguir, os principais pontos para entender o episódio.

A operação militar e a captura de Maduro

A ofensiva americana foi descrita como a maior intervenção dos EUA na América Latina desde a invasão do Panamá, em 1989. Forças especiais chegaram a Caracas em helicópteros, romperam o cordão de segurança presidencial e capturaram Maduro na porta de uma sala segura, antes que ele conseguisse se refugiar em um bunker.

A ação incluiu bombardeios em áreas estratégicas da capital e de outros estados, com relatos de mortes entre integrantes da segurança venezuelana. Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram retirados do país e levados para os Estados Unidos, onde estão presos no Brooklyn.

A ação incluiu ataques aéreos e incursões terrestres em Caracas e em estados estratégicos como Miranda, La Guaira e Aragua. Segundo Washington, alvos militares e sistemas de energia foram atingidos antes da retirada de Maduro do país.

Prisão nos EUA e acusações criminais

Maduro deve comparecer a um tribunal federal em Manhattan nesta segunda-feira (5), para responder a acusações de narcoterrorismo, tráfico internacional de cocaína, conspiração criminosa e associação com organizações armadas.

Segundo promotores americanos, ele teria chefiado por décadas uma rede estatal de tráfico de drogas, em parceria com cartéis mexicanos como Sinaloa e Zetas, grupos guerrilheiros colombianos das Farc e a facção venezuelana Tren de Aragua.

Caso condenado, pode enfrentar penas que vão de décadas de prisão à prisão perpétua. O ex-líder venezuelano nega todas as acusações.

A justificativa de Washington e a “Doutrina Donroe”

O presidente Donald Trump confirmou a operação e apresentou o que chamou de “Doutrina Donroe”, em referência direta à Doutrina Monroe. O presidente afirmou que os EUA estão “no comando” e não descartou novos ataques caso a Venezuela não coopere com a abertura do setor petrolífero e com o combate ao narcotráfico.

Ele também fez advertências a Colômbia, México e Cuba, sugerindo que outros países poderiam ser alvo de ações semelhantes. Para Trump, a captura de Maduro também responde ao fluxo migratório venezuelano e a disputas históricas envolvendo a nacionalização de interesses petrolíferos americanos.

Quem governa a Venezuela agora

Após a captura de Maduro, o Supremo Tribunal venezuelano reconheceu a vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente interina. As Forças Armadas declararam apoio à transição e ao decreto de “agitação externa”, que amplia poderes do Executivo em contexto de conflito.

Após denunciar a captura de Maduro como um sequestro e uma apropriação colonial de petróleo, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, mudou de tom no domingo, dizendo que era uma prioridade manter relações respeitosas com Washington.

“Convidamos o governo dos EUA a trabalhar juntos em uma agenda de cooperação orientada para o desenvolvimento compartilhado dentro da estrutura do direito internacional para fortalecer a coexistência duradoura da comunidade”, disse Rodríguez. “O presidente Donald Trump, nossos povos e nossa região merecem paz e diálogo, não guerra.”

Filha de um guerrilheiro esquerdista, Rodríguez, de 56 anos, tem sido uma integrante firme e de fala inflamada do movimento governista “chavista” — nomeado em homenagem ao falecido líder Hugo Chávez —, o que lhe rendeu elogios de Maduro como uma “tigresa”.

Mas ela também é conhecida como uma pragmática com boas conexões no setor privado e uma crença na ortodoxia econômica. Muitos venezuelanos a conhecem pelas roupas de luxo que gosta de usar.

Não está claro como os EUA trabalhariam com um governo pós-Maduro, repleto de inimigos ideológicos jurados. Ele parece ter deixado de lado, por enquanto, a oposição venezuelana, na qual muitos ativistas anti-Maduro supunham que esse seria o seu momento.

O papel do petróleo na crise

Embora tenha denunciado Maduro como ditador e chefe do tráfico de drogas, que inundou os EUA com cocaína, Trump não escondeu que deseja deter uma parcela das riquezas petrolíferas da Venezuela.

A Venezuela concentra as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em cerca de 303 bilhões de barris. Trump declarou que pretende “recuperar” ativos e abrir o setor a empresas americanas.

Hoje, a produção venezuelana gira em torno de 800 mil a 1,1 milhão de barris por dia, bem abaixo do pico histórico.

A instabilidade em decorrência da invasão pode afetar a oferta, enquanto no longo prazo a abertura ao capital estrangeiro pode pressionar os preços globais.

Reação internacional e debate na ONU

A ofensiva gerou consternação global. O Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas deve discutir a legalidade e as implicações da captura de um chefe de Estado estrangeiro.

Rússia, China e aliados de esquerda da Venezuela condenaram a ação por violação do direito internacional. Cuba afirmou que 32 de seus militares e agentes de inteligência morreram durante a incursão.

Já aliados de Washington adotaram postura mais cautelosa, pedindo diálogo e respeito às normas internacionais, sem condenar abertamente os EUA. Especialistas avaliam que, graças ao poder de veto americano, dificilmente haverá uma resolução condenatória.

Impactos regionais e riscos à segurança

A crise inaugura um novo patamar de instabilidade na América do Sul. Não está claro como os EUA pretendem lidar com um governo pós-Maduro formado majoritariamente por aliados ideológicos do chavismo, nem qual será o espaço da oposição venezuelana, que ficou à margem do processo.

Analistas veem risco de prolongamento da tensão militar, impacto nos mercados de energia e enfraquecimento das normas de não intervenção.

Para a região, o episódio representa um ponto de inflexão, em que disputas por recursos estratégicos, migração e segurança passam a orientar de forma mais explícita a política externa americana.

Matéria publicada no portal InfoMoney, publicada no dia 05/01/2026, às 09:51 (horário de Brasília)