Subsídio segura alta do diesel, mas falta de refinarias cobra preço
A guerra entre Estados Unidos e Irã, que completou 100 dias, está com seus piores efeitos minimizados pelo subsídio ao diesel, avalia o ex-engenheiro de exploração da Petrobrás e consultor aposentado da Câmara para assuntos de energia Paulo César Ribeiro Lima (foto).
Em entrevista ao Metrópoles, ele afirma que o país deve seguir concluindo refinarias porque o país ainda precisará de diesel e outras energias fósseis por pelo menos 20 anos. A transição energética será gradual, avalia.
Segundo ele, que é doutor em engenharia pela Universidade de Cranfield, na Inglaterra, a política do governo brasileiro de cobrar as petroleiras com um imposto de 12% sobre as exportações de petróleo tem ajudado bem a segurar o preço do diesel nas bombas.
Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostram que, em janeiro, antes da guerra, o preço médio nas cinco regiões do país variava de R$ 5,96 a R$ 6,31 por litro. Na última semana de maio, variou de R$ 6,76 a R$ 7,28. Ainda assim, o valor é menor que a média de R$ 7,61, registrada em abril na região Nordeste, por exemplo.
O valor do tributo bancaria o subsídio até no ano que vem, depois das eleições, afirmou Lima. “Enquanto tiver com o imposto de exportação, está arrecadando muito”, disse. “O preço está alto e você vai segurar aí. A guerra pode durar o que for, porque você vai ter recurso para subsídio do diesel com esse imposto de exportação.”
“Enquanto tiver o preço alto e tiver o imposto de exportação, tem o recurso e dura indefinidamente.” – Paulo César Lima, engenheiro de produção de petróleo
Na avaliação de Lima, o entanto, erros da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) custaram caro à infraestrutura do Brasil para refinar diesel e abastecer a frota de caminhões, a base do transporte de mercadorias no país.
“Ela entendeu que tinha que suspender as refinarias. Achou que o Brasil não devia investir em refino.”
Lima diz que o Brasil exporta petróleo bruto justamente porque não tem onde refiná-lo apesar das obras paradas ou não concluídas de Abreu e Lima, em Pernambuco, e do Comperj, no Rio de Janeiro. “O Brasil precisa de refino. Não era para estar importando nem diesel nem GLP.”
Veja os principais trechos da entrevista.
Metrópoles – O subsídio ao diesel se sustenta para atravessar a crise atual do petróleo?
Paulo César Lima – Quem está segurando o subsídio do diesel é o imposto de exportação, que é 12%. Enquanto tiver com o imposto de exportação, está arrecadando muito. O preço está alto e você vai segurar aí. A guerra pode durar o que for, porque você vai ter recurso para subsídio do diesel com esse imposto de exportação. Mais da metade do petróleo brasileiro hoje é exportado. É a Petrobras, a Shell, a Total, a Equinor, tem outras também. É quem está bancando o subsídio.
As petroleiras não são prejudicadas?
Esses caras têm lucro extraordinário, têm benefício fiscal, pagam pouco imposto de renda. Na verdade eles tinham que ser muito mais cobrados O governo está de parabéns. Está mais que certo. Tem que fazer isso mesmo.
Como o Brasil administra a crise internacional dos combustíveis?
O Brasil está ótimo. Está gerenciando bem a crise. O país que está gerenciando melhor essa crise da guerra é o Brasil.
O imposto de exportação pode sustentar o programa após dezembro?
Enquanto tiver o preço alto e tiver o imposto de exportação, tem o recurso e dura indefinidamente.
Por que o Brasil exporta tanto petróleo?
Porque não tem onde refinar. Nós não temos parque de refinamento. É refinado no Brasil um pouco mais de dois milhões de barris por dia e um pouco mais de dois milhões de barris por dia são exportados. O Comperj [Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro] acabou. Eles estão lá tentando fazer umas coisas, mas os equipamentos estão guardados.
O Comperj foi um erro?
O Brasil precisa de refino. Não era para estar importando nem diesel nem GLP. O local do Comperj foi bom? Não, foi péssimo. Foi muito mal escolhido. Mas é melhor concluir ou parar? É melhor concluir. Eu sou favorável que retome o Comperj. Espero que a ficha tenha caído. Já que começou, já que tem os equipamentos, já investiu muito.”
Onde a refinaria do Comperj deveria ter sido construída?
Eu defendi muito que fosse no Nordeste. No Ceará, por exemplo.
A ampliação de Abreu e Lima resolve o problema?
Abreu e Lima vai ser uma fonte importante de diesel. Mas é muito tímido.
Quem é responsável por essa situação?
Dilma Rousseff [presidente da República entre 2011 e 2016]. Ela entendeu que tinha que suspender as refinarias. Achou que o Brasil não devia investir em refino.
Por que isso foi um erro, na sua avaliação?
Nós vamos precisar de diesel ainda por décadas. Pelo menos duas décadas. Então é uma besteira não investir em refino.
Matéria publicada no portal da Fecombustíveis, no dia 09/06/2026, às 06:00 (horário de Brasília)

