EUA e Irã trocam ataques, colocando em risco as negociações de um acordo de paz

O presidente Donald Trump afirmou ter retaliado contra a República Islâmica pelo abate de um helicóptero Apache americano perto do Estreito de Ormuz. Teerã não confirmou o abate da aeronave e disse estar reavaliando a possibilidade de prosseguir com as negociações em função dos ataques americanos.

“O processo diplomático não acontece no vácuo e, para avançar em qualquer processo diplomático, é necessário um espaço mínimo para que se possa progredir”, disse Esmail Baghaei, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, citado pela agência de notícias estatal Islâmica da República. “Sempre que necessário, nossas forças armadas responderão ao inimigo com autoridade.”

As Forças Armadas dos EUA afirmaram ter concluído uma operação na qual caças atacaram defesas aéreas iranianas, estações de controle terrestre e locais de radar perto do Estreito de Ormuz.

A Guarda Revolucionária Islâmica do Irã lançou mísseis contra quatro alvos americanos, incluindo abrigos que abrigam caças F-35 e um centro de comando militar dos EUA na Base Aérea de Al-Azraq, na Jordânia, informou a agência de notícias estatal IRIB nesta quarta-feira.

O Irã também afirmou ter disparado drones contra a principal base naval dos EUA no Oriente Médio, localizada no Bahrein, e atacado a base aérea de Ali Al Salem, no Kuwait.

O Ministério da Defesa do Kuwait afirmou ter interceptado projéteis na madrugada de quarta-feira, enquanto a Jordânia disse ter interceptado cinco mísseis iranianos.

Teerã afirmou ter exercido seu “direito inerente à legítima defesa” e alertou os países da região para que não permitam que os EUA e Israel usem seu território como base para ataques contra a República Islâmica.

Não houve relatos imediatos de vítimas em nenhum dos ataques.

Embora tenham ocorrido conversas indiretas e intermitentes entre o Irã e os EUA sobre um acordo provisório — que visa estender o cessar-fogo por dois meses e reabrir o Estreito de Ormuz —, os confrontos ressaltaram a alta tensão existente. Eles ocorreram após os confrontos entre o Irã e Israel no início desta semana, que levaram Trump a pedir que ambos os países parassem.

Trump afirmou repetidamente que um acordo com o Irã está ao alcance e, mesmo com a recente escalada das tensões, sinalizou que deseja conter as hostilidades e evitar o retorno a uma guerra total. A pressão sobre ele para que ponha fim a um conflito que já matou milhares de pessoas no Oriente Médio e fez disparar os preços globais da energia está aumentando.

Os preços do petróleo apresentaram pouca variação na quarta-feira, com o Brent caindo 0,2%, para US$ 91,29 o barril. Essa estabilidade sugere que os mercados estão amplamente confiantes de que Teerã e Washington chegarão a um acordo, apesar da recente escalada de tensões. Os preços, embora ainda significativamente mais altos desde o início da guerra em 28 de fevereiro, caíram em relação às máximas de cerca de US$ 118 registradas no final de abril.

As forças armadas americanas descreveram suas operações como uma “resposta proporcional aos recentes ataques contra forças americanas e navios comerciais internacionais que transitavam em águas regionais”.

Os dois pilotos do helicóptero Apache foram resgatados após a aeronave ser atingida enquanto patrulhava o Estreito de Ormuz no início desta semana. Um oficial americano, que pediu para não ser identificado devido à investigação em andamento, disse que os indícios iniciais apontam para uma colisão entre a aeronave e um drone Shahed, e o Comando Central dos EUA (Centcom) está avaliando se o acidente foi intencional.

Entre os principais obstáculos nas negociações, destaca-se a exigência de Teerã de que Washington descongele mais de US$ 10 bilhões em fundos retidos no exterior. Também não está claro se o Irã concordará em diluir seus estoques de urânio altamente enriquecido ou enviá-los para outro país, como a China.

O Líbano, onde Israel luta contra o Hezbollah, é outro ponto de atrito. O Irã lançou mísseis contra Israel dias atrás, depois que o Estado judeu atacou a milícia apoiada pelo Irã e infraestrutura em Beirute, a capital libanesa. Israel retaliou apesar dos apelos de Trump ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu para que não o fizesse.

Na segunda-feira, Irã e Israel concordaram em cessar os ataques mútuos. Teerã informou que alguns militares foram mortos nos ataques israelenses, enquanto Israel interceptou mísseis que se aproximavam.

O Irã e os EUA têm negociado principalmente por meio do Paquistão e de países como o Catar. Intermediários liderados pelo Paquistão continuaram as discussões com ambos os lados esta semana, segundo pessoas familiarizadas com o assunto, que pediram para não serem identificadas devido à sensibilidade do tema.

Matéria publicada na Bloomberg, no dia 10/06/2026, às 04:22 (horário de Brasília)