Por que o petróleo voltou a subir? Os quatro fatores que estão movimentando o mercado global de energia
Após um período de relativa estabilidade, o mercado internacional de petróleo voltou a operar sob forte volatilidade. O Brent ultrapassou novamente a marca dos US$ 100 por barril em meio ao agravamento das tensões no Oriente Médio, novas ameaças às principais rotas marítimas de transporte de petróleo, restrições na oferta global de diesel e mudanças nas políticas de subsídios em alguns mercados consumidores.
Embora cada um desses fatores tenha origem distinta, todos convergem para um mesmo resultado: aumento da percepção de risco, elevação dos custos logísticos e pressão sobre os preços internacionais dos combustíveis.
1. Oriente Médio: o maior risco para o abastecimento mundial de petróleo
O principal fator por trás da recente valorização do Brent é a escalada das tensões no Oriente Médio. O conflito envolvendo Estados Unidos, Irã e seus aliados voltou a colocar em risco duas das rotas marítimas mais importantes para o comércio global de petróleo: o Estreito de Ormuz e o estreito de Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho.
No Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo, a retomada dos ataques entre EUA e Irã levaram Teerã a anunciar o fechamento do canal novamente, reduzindo significativamente o fluxo de petroleiros. Segundo analistas, o carregamento de petróleo na região caiu de aproximadamente 6 milhões para 2,5 milhões de barris por dia nos últimos dias, enquanto diversos navios passaram a evitar a travessia.
Ao mesmo tempo, os Houthis, grupo rebelde do Iêmen apoiado pelo Irã, abriram uma nova frente de pressão ao anunciar um bloqueio contra embarcações sauditas no estreito de Bab el-Mandeb. O ataque a dois petroleiros da Arábia Saudita reacendeu as preocupações com a segurança da principal ligação entre o Mar Vermelho e o Oceano Índico, rota responsável pelo escoamento de cerca de 6% da oferta mundial de petróleo.
A combinação entre ameaças em Ormuz e Bab el-Mandeb elevou os custos de frete e de seguro marítimo, além de reduzir o número de embarcações dispostas a operar na região. Como consequência, o Brent voltou a superar os US$ 100 por barril, enquanto instituições financeiras, como o Goldman Sachs, passaram a considerar cenários em que a cotação possa ultrapassar US$ 120 caso as interrupções se prolonguem.
2. A crise do diesel russo amplia a pressão sobre os combustíveis
Além das preocupações com o petróleo bruto, o mercado enfrenta um novo problema: a disponibilidade de diesel.
A Rússia, um dos maiores exportadores mundiais do combustível, suspendeu temporariamente suas exportações após ataques ucranianos atingirem refinarias e infraestruturas energéticas do país. A medida busca preservar o abastecimento interno, mas reduziu significativamente a oferta disponível no mercado internacional.
O impacto foi ainda mais intenso sobre o diesel do que sobre o próprio petróleo. Enquanto o Brent acumulou alta próxima de 10% em um mês, o principal contrato internacional de diesel avançou cerca de 33%, refletindo a escassez do combustível refinado e a maior disputa entre importadores pelas cargas disponíveis.
Mesmo que a proibição seja temporária, especialistas avaliam que a recuperação da capacidade de refino russa poderá levar meses, prolongando os efeitos sobre os preços internacionais.
3. O Brasil continua exposto às oscilações do mercado internacional
Apesar de ser um dos maiores produtores de petróleo do mundo, o Brasil ainda depende da importação de derivados, principalmente diesel.
A produção nacional de petróleo não elimina essa necessidade porque a capacidade de refino do país permanece insuficiente para atender toda a demanda doméstica, em torno de 25% do diesel comercializado é importado. Além disso, boa parte das refinarias brasileiras foi projetada para processar petróleos mais pesados, enquanto a produção do pré-sal é predominantemente composta por petróleo leve.
Essa dependência faz com que o mercado brasileiro acompanhe de perto as oscilações internacionais. Sempre que o Brent sobe, o dólar se valoriza ou há redução na oferta global de diesel, aumenta também o custo de reposição para importadores e distribuidoras.
A suspensão das exportações russas agrava esse cenário, já que o Brasil vinha sendo um dos principais compradores do diesel produzido pela Rússia e agora precisa disputar cargas provenientes de outros mercados, geralmente com preços mais elevados.
As importações de diesel vindo da Rússia despencaram, de 1 bilhão de litros em maio para 350 milhões em junho.

Os dados oficiais de julho ainda não foram divulgados, mas a Abicom (Associação Brasileira de Importadores de Combustíveis) estima que as importações russas representaram apenas 13% das compras brasileiras, com os Estados Unidos assumindo a dianteira, com 82%.
4. O fim da subvenção amplia a sensibilidade dos preços internos
Ao cenário internacional soma-se uma mudança doméstica importante: o encerramento da subvenção de R$ 0,35 por litro sobre o diesel.
Enquanto o benefício esteve em vigor, parte da alta dos preços internacionais foi absorvida pelo governo, reduzindo o impacto para transportadores, empresas e consumidores. Com o fim do programa, o mercado interno passa a responder de forma mais direta às oscilações do petróleo, do diesel importado e do câmbio.
Apesar da Petrobras ter absorvido os impactos do fim da subvenção, reduzindo seus preços do óleo diesel no mesmo valor, entes privados, como a Refinaria de Manaus (REAM) repassou para os seus preços o aumento de R$ 0,35 por litro.
O momento coincide com um período de petróleo operando na faixa dos US$ 100 por barril, aumento dos custos logísticos e forte valorização do diesel no mercado internacional. Como consequência, cresce a pressão sobre distribuidores, importadores e sobre a própria política comercial da Petrobras, que busca equilibrar competitividade e abastecimento sem repassar integralmente a volatilidade externa aos consumidores.
Conclusão:
A alta recente do petróleo não é resultado de um único acontecimento, mas da convergência de diversos fatores que afetam tanto a oferta quanto a logística global de energia. A escalada dos conflitos no Oriente Médio, as ameaças às principais rotas marítimas, a redução da oferta de diesel russo e os desafios enfrentados por mercados importadores criam um ambiente de elevada incerteza para produtores, refinadores e consumidores.
Nesse contexto, países como o Brasil, que ainda dependem da importação de derivados, tendem a sentir com mais intensidade os efeitos desses movimentos, reforçando a importância de acompanhar não apenas a cotação do Brent, mas também os eventos geopolíticos e logísticos que hoje determinam o comportamento do mercado global de combustíveis.
Matéria de autoria da equipe de comunicação da Raion Consultoria.