A trégua no Oriente Médio está em dúvida, enquanto EUA e Irã disputam o controle do Estreito de Ormuz

Uma trégua frágil no Oriente Médio ficou sob tensão nesta terça-feira, após os Estados Unidos e o Irã trocarem tiros no Golfo Pérsico, em uma disputa pelo controle do Estreito de Ormuz.

O presidente do parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, afirmou em uma publicação nas redes sociais na terça-feira que as violações do cessar-fogo de quatro semanas pelos Estados Unidos e seus aliados colocaram em risco a navegação e o trânsito de energia por essa importante hidrovia.

“Sabemos muito bem que a continuação da situação atual é insuportável para os Estados Unidos, e ainda nem começamos”, disse ele.

Ataques nos golfo

O exército dos EUA afirmou na segunda-feira ter destruído seis pequenas embarcações iranianas, além de mísseis de cruzeiro e drones, depois que o presidente Donald Trump enviou a Marinha para escoltar petroleiros retidos através do estreito em uma operação que ele chamou de “Projeto Liberdade”.

A estreita hidrovia, que transporta grande parte do suprimento global de petróleo, fertilizantes e outras commodities, está praticamente fechada desde que os EUA e Israel iniciaram os ataques ao Irã em 28 de fevereiro, causando aumentos de preços em todo o mundo.

Diversos navios mercantes no Golfo Pérsico relataram explosões ou incêndios na segunda-feira, e um porto petrolífero nos Emirados Árabes Unidos, que abriga uma grande base militar dos EUA, foi incendiado por mísseis iranianos.

A Guarda Revolucionária Islâmica do Irã fechou efetivamente o estreito com ameaças de minas, drones, mísseis e lanchas de ataque rápido, enquanto os Estados Unidos responderam bloqueando os portos iranianos.

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, afirmou que os eventos de segunda-feira demonstraram que não há solução militar para a crise. Ele disse que as negociações de paz estão progredindo com a mediação do Paquistão e alertou os Estados Unidos e os Emirados Árabes Unidos para que não se deixem arrastar para um “atoleiro”.

As Forças Armadas dos EUA disseram que dois navios mercantes americanos conseguiram atravessar o estreito, sem especificar quando, com o apoio de destróieres de mísseis guiados da Marinha.

O Irã negou que qualquer travessia tivesse ocorrido, embora a empresa de transporte marítimo Maersk tenha afirmado isso. O navio Alliance Fairfax, de bandeira americana, deixou o Golfo do México sob escolta militar dos EUA na segunda-feira.

O comandante das forças americanas na região afirmou que sua frota destruiu seis pequenas embarcações iranianas, o que o Irã também negou. A mídia iraniana citou um comandante militar dizendo que as forças americanas alvejaram duas pequenas embarcações comerciais, matando cinco civis.

O Irã também afirmou na segunda-feira ter disparado contra um navio de guerra americano que se aproximava do estreito, forçando-o a retornar. Autoridades iranianas descreveram posteriormente os disparos como tiros de advertência.

A Reuters não conseguiu verificar de forma independente os acontecimentos no estreito, uma vez que ambos os lados emitiram declarações contraditórias.

A Coreia do Sul informou que um de seus navios mercantes, o HMM Namu, sofreu uma explosão e um incêndio na casa de máquinas enquanto navegava no estreito, embora ninguém a bordo tenha ficado ferido. Um porta-voz do governo afirmou que ainda não se sabe se o incêndio foi causado por um ataque.

Também na segunda-feira, a agência britânica de segurança marítima UKMTO informou que dois navios foram atingidos na costa dos Emirados Árabes Unidos, e a companhia petrolífera emiradense ADNOC disse que um de seus petroleiros vazios foi atingido por drones iranianos.

Porto de petróleo dos Emirados Árabes Unidos em chamas

As autoridades iranianas divulgaram um mapa do que afirmaram ser uma área marítima expandida agora sob controle iraniano, que se estende além do estreito para incluir longos trechos do litoral dos Emirados Árabes Unidos.

Após um dia de relatos de ataques com drones e mísseis dentro dos Emirados Árabes Unidos, incluindo um que causou um incêndio em Fujairah, um importante porto petrolífero, os Emirados Árabes Unidos afirmaram que os ataques iranianos representam uma escalada grave e que se reservam o direito de responder.

O mapa iraniano incluía Fujairah e outro porto emiradense, Khorfakkan, ambos localizados no Golfo de Omã e dos quais os Emirados Árabes Unidos dependem desde o início do conflito para contornar o estreito bloqueado.

Se o Irã conseguisse impor o controle sobre o acesso a esses portos, isso equivaleria a um cerco marítimo quase total do Estado árabe do Golfo.

A televisão estatal iraniana afirmou que autoridades militares confirmaram ter atacado os Emirados Árabes Unidos em resposta ao “aventureirismo militar dos EUA”.

O conselheiro presidencial dos Emirados Árabes Unidos, Anwar Gargash, disse na terça-feira que Abu Dhabi recebeu mensagens de solidariedade de aliados regionais e de outros países, que, segundo ele, “afirmam que o Irã é o agressor, responsável pela escalada da crise” no Golfo.

Esforços de paz paralisados

A guerra no Oriente Médio custou milhares de vidas e abalou a economia global. Autoridades americanas e iranianas realizaram uma rodada de negociações de paz presenciais, mas as tentativas de agendar novos encontros fracassaram.

Trump afirmou que os ataques EUA-Israel visavam eliminar o que ele chamou de ameaças iminentes do Irã, citando seus programas nucleares e de mísseis balísticos, seu apoio ao Hamas e ao Hezbollah e suas “atividades ameaçadoras”.

A mídia estatal iraniana afirmou no domingo que os EUA transmitiram sua resposta a uma proposta iraniana de 14 pontos por meio do Paquistão, e que o Irã estava analisando-a. Nenhuma das partes forneceu detalhes.

A proposta adiaria as negociações sobre os programas de energia nuclear e pesquisa do Irã até que fossem firmados acordos para encerrar a guerra e sobre a segurança da navegação. Trump disse no fim de semana que ainda estava analisando a proposta, mas que provavelmente a rejeitaria.

As informações mais recentes da inteligência americana mostram danos limitados ao programa nuclear iraniano desde o início da guerra, disseram autoridades à Reuters.

Trump quer confiscar os estoques de urânio enriquecido do Irã para impedir que o país o processe a ponto de produzir uma arma nuclear. O Irã nega estar empenhado em construir uma bomba nuclear.

Matéria publicada na Reuters, no dia 05/05/2026, às 01:33 (horário de Brasília)