Abastecimento de diesel está ‘apertado’ para novembro, diz presidente da associação de importadores

O abastecimento de diesel no Brasil para novembro está “apertado” na avaliação de especialistas do setor. A importação soma cerca de 25% a 30% do consumo. A poucos dias do fim de outubro, os volumes de navios previstos para chegar ao país no próximo mês ainda não são expressivos, de acordo com Sérgio Araújo, presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom).

Nesta terça-feira, o governo anunciou a prorrogação, por mais 30 dias, de uma das subvenções ao diesel. O mecanismo prevê um pagamento de R$ 2,12 por litro e havia vencido na segunda-feira. Há ainda uma segunda subvenção, de R$ 1,40 por litro, válida até 12 de novembro. Juntas, as duas medidas somam R$ 3,52 por litro.

O setor conta com um excedente de aproximadamente 300 mil metros cúbicos de diesel em outubro, que poderá ser transferido para novembro e ajudar a garantir o fornecimento. Pouco, se considerarmos a expectativa de consumo para novembro, de 5,8 milhões de metros cúbicos. Como comparação, o consumo de outubro foi de 6,6 milhões de metros cúbicos.

— Por enquanto, o mês de novembro ainda não está garantido para o abastecimento, mas temos mais alguns dias para observar os line-ups (programação de chegada de no navios). O volume que sobrou em outubro ajuda bastante. O setor aguarda a confirmação de novas embarcações nos próximos dias — afirma Araújo.

Segundo o Ministério do Planejamento, só a subvenção de R$ 2,12 ao diesel custa R$ 10,5 bilhões a cada 30 dias. A subvenção extra ao diesel importado custa R$ 1,6 bilhão em 30 dias. De acordo com o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, os gastos entram na conta da meta de resultado primário e são cobertos com receitas extraordinárias do petróleo, como prevê lei aprovada pelo Congresso.

Defasagem persiste

Mesmo com os incentivos, porém, o diesel importado continua mais caro que o produto vendido pelas refinarias da Petrobras. Segundo a Abicom, a defasagem média do diesel nas refinarias da estatal está em R$ 4,15 por litro, equivalente a 127% em relação à referência internacional.

Considerando os R$ 3,52 por litro em subvenções, a diferença entre os preços domésticos e os internacionais ainda deixa o produto importado cerca de R$ 0,63 por litro mais caro que o combustível nacional. Na avaliação de Araújo, esse cenário fecha, na prática, a janela econômica para as importações neste momento, reduzindo o estímulo para que os agentes tragam diesel do exterior.

— Se você considerar que, no preço da Petrobras, vai poder receber a mais R$ 3,52 e a defasagem está em R$ 4,15, isso quer dizer que as importações neste momento estão com as janelas fechadas. O produto importado chega R$ 0,63 mais caro que o nacional — explica. Sem previsão de reajuste

De acordo com fontes na estatal, ainda não há nesse momento previsão de reajuste do diesel. Segundo uma fonte do setor de distribuição, o cenário para novembro é considerado perigoso para as importações de diesel por empresas privadas, uma vez que o volume previsto para chegar ao país ainda é muito baixo. Essas fontes avaliam que, em caso de falta de produto ou de sinais de escassez, a Petrobras poderá suprir a demanda por combustível importado, como tem feito nos últimos meses.

Segundo um executivo de uma empresa importadora que atua na distribuição, as compras no exterior estão em patamares mínimos, apenas para garantir o funcionamento básico das operações neste momento. “a avaliação é que vamos esperar mais alguns dias para ver como se comportam as commodities e se haverá alguma sinalização a mais do governo e da Petrobras”, disse o executivo.

Para a Abicom, a Petrobras deveria elevar gradualmente os preços do diesel nas refinarias para aproximá-los das cotações internacionais. A medida reduziria a diferença entre os valores praticados no Brasil e no exterior e poderia diminuir a necessidade de manutenção dos subsídios públicos ao combustível.

Araújo, no entanto, não acredita que a estatal vá promover um reajuste nos próximos dias. Segundo ele, o aumento seria uma medida impopular, o que torna menos provável uma mudança imediata na política de preços.

— A Petrobras deveria começar a elevar os preços para equipará-los ao mercado internacional. É uma forma de, gradativamente, o governo poder ficar livre dessa subvenção. Mas não acredito que isso vá acontecer nos próximos dias. É uma medida impopular, então acho pouco provável que a Petrobras faça isso agora — afirma.

Com isso, a expectativa da entidade é de manutenção do cenário atual no curto prazo, sem indicação de um aumento iminente nos preços da estatal.

Peso do câmbio

Outro fator que influencia a defasagem é a taxa de câmbio. Segundo Araújo, a recente valorização do dólar ampliou a pressão sobre os preços dos combustíveis importados. Uma eventual acomodação da moeda americana poderia reduzir parte dessa diferença e melhorar as condições para a entrada de diesel no país.

O presidente da Abicom afirma que espera uma redução do câmbio, o que ajudaria a aliviar a defasagem, embora não seja possível antecipar a intensidade desse movimento.

O cenário internacional também permanece incerto. O conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel está entre os fatores acompanhados pelo setor, já que eventuais mudanças nas condições de oferta e nos preços externos podem afetar o custo das importações brasileiras.

Araújo cita ainda a possibilidade de a Rússia ampliar a oferta de diesel no mercado internacional. Caso o país libere volumes adicionais de sua produção para exportação, poderia haver aumento da disponibilidade do combustível e pressão de baixa sobre as cotações.

Até o momento, porém, não há um sinal concreto de resolução dos conflitos ou de aumento efetivo da oferta russa que permita projetar uma redução dos preços internacionais.

— Não temos ainda nenhum fato que direcione para uma solução que leve à redução dos preços — afirma o presidente da Abicom.

Matéria publicada no Globo, no dia 28/10/2026, às 04:00 (horário de Brasília)