Ataque do Iraque à usina nuclear dos Emirados Árabes Unidos foi um “tiro de advertência” do Irã
Um ataque a uma usina nuclear nos Emirados Árabes Unidos aumentou os temores sobre o alcance da retaliação do Irã a uma possível retomada dos ataques dos EUA, com especialistas destacando o papel cada vez maior que as milícias apoiadas por Teerã no Iraque estão desempenhando na guerra.
Os Emirados Árabes Unidos afirmaram esta semana que um drone que teve como alvo sua fábrica em Barakah no domingo foi lançado do Iraque, condenando o ato como “terrorista”. Anwar Gargash, um importante conselheiro do presidente Sheikh Mohamed Bin Zayed, culpou “milícias iranianas no Iraque” pelo incidente, em uma publicação nas redes sociais.
“É um grave indicador da dimensão da ameaça que a região enfrenta”, disse Gargash. O incidente obrigou a usina a ativar a energia de reserva, uma das últimas linhas de defesa para manter a segurança nuclear.
Barakah é a maior usina nuclear do Oriente Médio e uma das duas em operação na região — Bushehr, no sul do Irã, é a segunda. Embora não tenham sido relatadas vítimas ou níveis anormais de radiação, o ataque ressaltou a vulnerabilidade da infraestrutura civil a uma escalada das hostilidades na região.
“Este foi um sinal de alerta do Irã” sobre o que pode acontecer aos Emirados Árabes Unidos e ao resto do Golfo se as hostilidades com Israel e os EUA forem reacendidas, disse Mohammed Baharoon, diretor do Centro de Pesquisa de Políticas Públicas de Dubai, ou B’huth. “É também uma forma de o Irã manter a pressão sobre os estados do Golfo e dizer-lhes: ‘Vocês não estarão imunes e, mesmo que não os ataquemos diretamente, nossos aliados o farão’.”
Nem o Irã nem seus aliados no Iraque reivindicaram a responsabilidade pelo ataque a Barakah ou pelos três drones lançados do Iraque em direção à Arábia Saudita na mesma hora, que, segundo as autoridades, foram interceptados.
Drones alvejaram usina nuclear dos Emirados Árabes Unidos
A agência reguladora nuclear dos Emirados Árabes Unidos afirmou que não houve vazamento radioativo nem risco para o público.

Os Estados Unidos e o Irã buscam transformar o frágil cessar-fogo acordado em 8 de abril em um fim mais permanente aos combates, mas ainda não chegaram a um acordo. O presidente americano, Donald Trump, tem alternado entre comentários otimistas sobre as chances de um acordo e ameaças de novos ataques, aos quais Teerã alerta que haverá uma resposta contundente, que se estenderá para além do Oriente Médio.
Milícias iraquianas ligadas à Guarda Revolucionária Islâmica do Irã estão desempenhando um papel cada vez mais significativo no confronto do Irã com os EUA e Israel, tendo reivindicado a responsabilidade por centenas de ataques com mísseis e drones contra interesses americanos no Iraque e em países vizinhos do Golfo. Kataib Hezbollah e Harakat Hezbollah Al-Nujaba, duas dessas milícias, são consideradas por muitos especialistas como unidades de fato da Guarda Revolucionária Islâmica.
“Esses grupos estão sob ordens diretas da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) para fazerem parte do esforço de guerra do Irã, que inclui atacar o Golfo”, disse Renad Mansour, vice-diretor do Programa para o Oriente Médio e Norte da África do think tank Chatham House, com sede em Londres.
A ACLED, organização independente de monitoramento de conflitos, afirmou ter registrado mais de 65 incidentes envolvendo milícias iraquianas contra países do Golfo durante o conflito, um número que, segundo a organização, é quase certamente uma subestimação.
“Muitos ataques originados no Iraque nunca são reivindicados publicamente, e distinguir entre ataques conduzidos diretamente pelo Irã e aqueles realizados por milícias iraquianas continua sendo extremamente difícil”, afirmou a ACLED em um comunicado.
Dania Thafer, diretora executiva do Gulf International Forum, um think tank sediado em Washington, afirmou que os ataques realizados por meio de grupos aliados iraquianos conferem ao Irã “um grau de negação plausível”.
Mas, segundo ela, essas declarações ainda representam um claro aviso de Teerã de que o país está pronto para atacar infraestruturas críticas, se necessário. Isso inclui especificamente os Emirados Árabes Unidos, afirmou, dada a postura agressiva do país e sua proximidade tanto com Israel quanto com os Estados Unidos.
“O Irã está tentando mostrar aos estados do Golfo que ainda não está fora de perigo, para que eles possam pressionar o governo Trump a não atacar”, disse ela.
Os Emirados Árabes Unidos foram alvo de quase 60% dos cerca de 5.000 mísseis e drones lançados pelo Irã contra os países do Golfo após o início da guerra em 28 de fevereiro. Abu Dhabi respondeu à agressão de Teerã em pelo menos duas ocasiões, em março e abril, com ataques coordenados com os EUA e Israel, conforme relatado pela Bloomberg.
Os ataques perpetrados por grupos aliados do Irã no Iraque contra países árabes vizinhos do Golfo, como Kuwait, Arábia Saudita e, mais recentemente, os Emirados Árabes Unidos, representam um “desastre” para o recém-empossado primeiro-ministro de Bagdá, Ali al-Zaidi, afirmou Mansour, do Chatham House. Esses ataques minam os esforços do Iraque para estreitar laços econômicos e políticos com os estados do Golfo.
Matéria publicada no Bloomberg, no dia 22/05/2026, às 04:34 (horário de Brasília)

