BC diz que reagirá “com firmeza” a eventuais efeitos provocados por choques de oferta

O Banco Central fez alertas sobre eventual disseminação de efeitos indiretos de choques relacionados aos preços do petróleo e a efeitos climáticos, o que demandaria “reação firme” da política monetária, demonstrando também preocupação com uma inflação pressionada pela demanda em meio a medidas de estímulo adotadas pelo governo.

Na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), a autarquia disse que choques de oferta têm exercido influência relevante sobre a trajetória da inflação e afirmou que não deve reagir aos efeitos primários de choques dessa natureza –como a variação imediata de preços de combustíveis.

“É necessário monitorar com atenção eventuais efeitos de segunda ordem, e reagir com firmeza caso esses efeitos se materializem”, disse o BC no documento, em referência a uma eventual transmissão mais disseminada desses efeitos para outros preços da economia.

O lado da demanda também recebeu atenção do BC, que apontou medidas de estímulo do governo como fator de pressão com potencial para impactar a curva de juros do país e a inflação.

“Embora a política monetária esteja contribuindo de forma determinante para o processo de desinflação, a inflação permanece pressionada pela demanda, exigindo que a política monetária mantenha caráter restritivo”, disse.

“O Comitê continuará acompanhando os dados para calibrar e refinar os impactos das medidas de estímulo à demanda e dos choques de oferta”.

Entre as ações implementadas pelo governo, e não mencionadas diretamente pelo BC, estão a ampliação da isenção do Imposto de Renda e uma série de linhas de crédito subsidiadas para compra de carros, caminhões e motocicletas e para renegociação de dívidas.

O BC cortou na semana passada a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, a 14,00% ao ano, e deixou os próximos passos em aberto em meio a uma melhora no cenário corrente, mas argumentou que manterá “a restrição adequada” para assegurar a convergência da inflação à meta.

Na ata, a autoridade monetária afirmou que acompanha com atenção a desancoragem adicional das expectativas de mercado para a inflação em prazos mais longos, defendendo “perseverança, firmeza e serenidade” na condução da política monetária para reverter esse cenário.

Apesar do nível restritivo dos juros, o mercado tem insistentemente mantido as projeções de inflação acima da meta de 3% nos próximos anos, com expectativa de altas de 5,02% neste ano, 4,22% em 2027 e 3,80% em 2028.

“Em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado”, reafirmou o BC no documento.

Na avaliação do conselheiro da Ancord Pablo Spyer, a ata divulgada nesta terça-feira veio um pouco mais dura que o comunicado da semana passada, com mensagens contundentes sobre as expectativas de mercado e a política fiscal do governo.

“Setembro (quando haverá nova reunião do Copom) continua em aberto e vai depender dos próximos dados de inflação, atividade, mercado de trabalho, expectativas e, principalmente, do comportamento das contas públicas… O BC cortou os juros, mas não tirou o pé do freio”, disse.

A autarquia reforçou que a atividade econômica no Brasil aponta para uma moderação gradual, mas ainda em patamar resiliente e com taxa de desemprego baixa.

Matéria publicada no portal InfoMoney, no dia 11/08/2026, às 08:16 (horário de Brasília)