Estados Unidos e Irã se aproximam de um acordo de curto prazo para pôr fim aos combates

Os Estados Unidos e o Irã estão se aproximando de um acordo limitado e temporário para interromper a guerra, disseram fontes e autoridades nesta quinta-feira, com uma proposta preliminar que cessaria os combates, mas deixaria as questões mais controversas sem solução.

O plano emergente centra-se num memorando de curto prazo em vez de um acordo de paz abrangente, sublinhando as profundas divisões entre as duas partes e sinalizando que qualquer acordo nesta fase seria uma medida provisória.

A esperança de que mesmo um acordo parcial possa levar à reabertura do Estreito de Ormuz já movimentou os mercados, com as ações globais se aproximando de máximas históricas na quinta-feira e os preços do petróleo sofrendo fortes perdas devido às apostas de que as interrupções no fornecimento possam diminuir.

Teerã e Washington reduziram as ambições de um acordo abrangente, uma vez que as divergências persistem, particularmente em relação ao programa nuclear iraniano — incluindo o destino de seus estoques de urânio altamente enriquecido e por quanto tempo Teerã interromperia as atividades nucleares.

Em vez disso, estão trabalhando em um acordo temporário com o objetivo de evitar o retorno do conflito e estabilizar a navegação pelo estreito, disseram as fontes e autoridades.

“Nossa prioridade é que eles anunciem o fim permanente da guerra, e o restante das questões poderá ser resolvido quando retomarem as negociações diretas”, disse à Reuters um alto funcionário paquistanês envolvido na mediação entre os dois lados.

De acordo com fontes e autoridades, a estrutura proposta se desenvolveria em três etapas: o fim formal da guerra, a resolução da crise no Estreito de Ormuz e a abertura de um período de 30 dias para negociações sobre um acordo mais amplo.

Uma fonte paquistanesa e outra fonte a par da mediação disseram que um memorando de uma página para encerrar formalmente o conflito estava próximo de ser concluído, embora ainda existissem divergências entre as partes.

Trump otimista, Irã cético

O presidente dos EUA, Donald Trump, que repetidamente enfatizou a possibilidade de um avanço desde o início da guerra em 28 de fevereiro com os ataques EUA-Israel ao Irã, adotou um tom otimista.

“Eles querem chegar a um acordo… é muito possível”, disse ele a repórteres na Casa Branca na quarta-feira, acrescentando mais tarde que “tudo terminará rapidamente”.

A proposta encerraria formalmente o conflito, no qual a guerra em grande escala foi interrompida por um cessar-fogo anunciado em 7 de abril. Mas deixa sem resposta exigências-chave dos EUA, como a suspensão do programa nuclear iraniano e a reabertura do Estreito de Ormuz, disseram as fontes.

Israel, que também vem combatendo o Hezbollah, apoiado pelo Irã, no Líbano, afirmou na quinta-feira ter matado um comandante do Hezbollah em um ataque aéreo em Beirute no dia anterior, o primeiro ataque israelense à capital libanesa desde que um cessar-fogo foi acordado no mês passado.

O Hezbollah desencadeou seu mais recente conflito com Israel ao abrir fogo em apoio ao Irã em 2 de março. A suspensão dos ataques israelenses no Líbano é outra exigência fundamental do Irã nas negociações de Teerã com Washington, e autoridades iranianas demonstraram ceticismo em relação à proposta dos EUA de encerrar a guerra em geral.

Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores disse que Teerã responderia oportunamente, enquanto o parlamentar Ebrahim Rezaei descreveu a proposta como “mais uma lista de desejos americana do que uma realidade”.

O presidente do parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, pareceu zombar das notícias que indicavam uma aproximação entre os dois lados, escrevendo nas redes sociais que “a Operação Confie em Mim, Irmão, fracassou” e retratando as negociações como uma manobra dos EUA após o fracasso na reabertura do estreito.

A expectativa de um acordo derruba o preço do petróleo, enquanto as ações sobem

Notícias sobre um possível acordo fizeram com que os preços globais do petróleo caíssem cerca de 11% na quarta-feira, com o petróleo Brent, referência internacional, sendo negociado em torno de US$ 98 o barril na quinta-feira.

Os preços das ações globais também subiram e os rendimentos dos títulos caíram devido ao otimismo em relação ao fim de uma guerra que interrompeu o fornecimento de energia.

“O conteúdo das propostas de paz entre os EUA e o Irã é superficial, mas existe uma expectativa no mercado de que não haverá novas ações militares”, disse Takamasa Ikeda, gestor sênior de portfólio da GCI Asset Management.

Tensões militares e regionais

Trump suspendeu na terça-feira uma missão naval que já durava dois dias., abre uma nova abacom o objetivo de reabrir o estreito bloqueado, citando progressos nas negociações.

A NBC News, citando dois funcionários americanos não identificados, afirmou que Trump decidiu pela pausa depois que a Arábia Saudita suspendeu a capacidade dos militares americanos de usar uma base saudita para a operação.

Autoridades sauditas ficaram surpresas e irritadas com o anúncio de Trump de que os EUA ajudariam a escoltar navios pelo Estreito, o que as levou a dizer a Washington que negariam aos EUA a permissão para sobrevoar o espaço aéreo saudita com aeronaves militares, informou a NBC.

A Casa Branca não respondeu imediatamente a um pedido de comentário sobre a reportagem.

As forças armadas dos EUA mantiveram o bloqueio a navios iranianos na região. O Comando Central dos EUA informou que suas forças dispararam contra um petroleiro de bandeira iraniana vazio na quarta-feira, incapacitando a embarcação enquanto ela tentava navegar em direção a um porto iraniano.

Principais reivindicações ignoradas

A fonte a par da mediação disse que as negociações nos EUA estavam sendo lideradas pelo enviado de Trump, Steve Witkoff, e pelo genro, Jared Kushner. Se ambos os lados concordassem com o acordo preliminar, isso iniciaria o prazo de 30 dias para negociações detalhadas, visando um acordo completo.

As fontes disseram que o memorando não mencionou várias exigências importantes que Washington fez no passado e que o Irã rejeitou, como as restrições ao programa de mísseis iraniano e o fim do apoio a milícias aliadas no Oriente Médio, incluindo o Hezbollah.

As fontes também não mencionaram o estoque existente do Irã de mais de 400 kg (900 libras) de urânio quase puro para armas — uma das principais preocupações de Washington.

Matéria publicada na Reuters, no dia 07/05/2026, às 00:07 (horário de Brasília)