Postos e distribuidoras de combustível ganham até 68% mais na guerra do Irã
Apesar do incentivo de R$ 37,5 bilhões do governo federal para segurar os preços dos combustíveis no Brasil, distribuidores e postos de combustíveis aumentaram suas margens brutas de lucro em até 68% durante a guerra iniciada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã em 28 de fevereiro. Essas margens subiram até 119% desde 2021, segundo cálculos do Ibeps (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais) com dados da ANP (Agência Nacional do Petróleo) e do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O que você precisa saber
O aumento nas margens da gasolina durante a guerra foi 12 vezes superior à inflação do período. Entre 28 de fevereiro e 5 de setembro, o ganho bruto aumentou 24,7% para esse combustível, contra uma inflação de 2,05% entre 28 de fevereiro e 31 de agosto, segundo o IPCA (a inflação oficial do Brasil) divulgado na sexta-feira (11) pelo IBGE.
Esse aumento foi ainda maior para o diesel S10. As margens brutas saltaram 68,7% durante a guerra, 33 vezes a inflação do período.
As margens das distribuidoras de botijão de gás de 13 kg (GLP) foram menores, mas também superaram a inflação. O aumento foi de 5,2% em comparação com o período anterior à guerra.
O aumento nas margens brutas de lucro é ainda maior se comparadas com 2021. Desde janeiro daquele ano, os lucros do diesel S10 subiram 119,7% em valores corrigidos pela inflação. Para o GLP, a alta foi de 49,2%. No mesmo período, a inflação acumulada foi de 37,3%. Apenas as margens da gasolina ficaram abaixo do IPCA: 32,7%.
Um estudo de 2024 mostrou que a margem líquida de lucros para o GLP beirou os 200%. A média passou de 7,7% em 2019 para 13,7% em 2023. “Quando auferida em reais por tonelada (R$/t), a margem líquida passa de R$ 285,22/t para R$ 821,90/t, salto de 188%”, diz a EPE (Empresa de Pesquisa Energética).
Escalada começou em 2021
O avanço das margens brutas de lucro começou no choque energético de 2021 (em razão da pandemia), e ganhou novo fôlego com a venda de refinarias da Petrobras. Há três anos, as empresas “aproveitaram o caos no mercado para aumentar sua lucratividade”, uma dinâmica que “acelerou com a guerra no Irã”, diz o economista Eric Gil Dantas, pesquisador do Ibeps.
A saída da Petrobras do segmento de distribuição, entre 2019 e 2021, também enfraqueceu a regulação desse mercado
“A privatização da BR Distribuidora reduziu a presença direta da Petrobras nesse elo da cadeia e, consequentemente, restringiu a incidência do poder público sobre a formação dos preços”, diz o economista Iago Montalvão, pesquisador do Ineep (Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis).
O aumento das margens ocorre apesar dos R$ 37,5 bilhões em subsídios e corte de tributos.
Na quarta (9), o governo reduziu os tributos federais sobre a gasolina em R$ 0,63 por litro e autorizou um subsídio de R$ 1 por litro para o diesel rodoviário em regras que duram até outubro, mês da eleição.
Para Dantas, os subsídios também são influenciados pela política.
“Eu acho que tem relação com a eleição [presidencial deste ano], claro”, diz ele com a ressalva de que “vários países estão fazendo isso desde o início da guerra”. A política de subsídios, iniciada em março, impediu que o Brasil sofresse aumentos como nos Estados Unidos, onde a alta foi superior a 50%, completa Dantas, que foi economista do Observatório Social Petrobras.
Relatório de quarta-feira (9) do Itaú BBA informa que a estatal mantém os preços do diesel e da gasolina com defasagem em relação ao mercado internacional.
A diferença de 28% e 21%, respectivamente, equivale a um desconto de R$ 1,28 por litro para o diesel e de R$ 1,18 para a gasolina. Enquanto a Petrobras vende o diesel a R$ 3,30 e a gasolina a R$ 4,42, os preços de paridade calculados pelo banco deveriam ser de R$ 4,58 e R$ 5,60, impedindo a estatal de gerar R$ 900 milhões em caixa por mês.
O setor diz que o aumento do frete e a importação de parte do combustível (mais caro lá fora) aumentou os custos.
Procurada, a Associação Brasileira das Distribuidoras de Combustíveis (Brasilcom) atribuiu a formação de preços a “uma questão estratégica de negócios de cada distribuidora associada e inclui diversos fatores, entre eles a logística, sem nenhuma interferência da Brasilcom, até por questão de compliance”, diz em nota.
Esses custos logísticos, como frete, pessoal, armazenagem e operação, não sofreriam grandes variações em 30 dias, diz Montalvão.
“É no intervalo entre a queda do custo de aquisição e a manutenção do preço na bomba que a margem bruta de distribuição e revenda se amplia”, diz. Para Dantas, as taxas de importação não justificariam a disparada nas margens. Entre março e julho, apenas 13% da gasolina, 22,4% do diesel e 18% do GLP foram importados, “única parte dos produtos que de fato poderia gerar algum aumento de custo de distribuição, e ainda assim seria apenas uma fração da margem”, diz.
Diante desses aumentos, o governo acionou a ANP.
Desde março, a agência lavrou 24 autos de infração por elevação abusiva de preços de combustíveis, incluindo 16 autos contra distribuidoras, após 3.834 ações de fiscalização pelo Brasil. Se os preços abusivos forem confirmados, as empresas podem pagar multas de R$ 50 mil a R$ 500 milhões, dependendo da gravidade e do porte da companhia. Como a vigência da lei que dava o poder de autuação à ANP terminou em 4 de agosto, o órgão agora encaminha os indícios aos Procons e ao Cade.
A Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis) rechaça a análise isolada do valor nominal em reais por litro para medir a rentabilidade dos postos.
Ela diz que as constantes oscilações do mercado e as frequentes atualizações da carga tributária inviabilizam comparações baseadas em valores fixos. Os impostos incidentes sobre o consumo, a inflação acumulada e a variação nos preços de aquisição nas refinarias provocariam distorções contábeis que camuflam o real fôlego financeiro das empresas. “As demonstrações de resultado econômico de toda e qualquer empresa devem indicar com clareza os percentuais de lucratividade da operação e não única e exclusivamente o valor nominal em reais ou centavos da margem bruta”, diz entidade em nota.
A margem de lucro bruto média da revenda de gasolina comum permaneceu em patamares estáveis ao longo de um extenso período histórico, afirma.
Os revendedores de combustíveis buscam preservar a saúde financeira dos postos por meio de margens operacionais equilibradas, independentemente da flutuação nominal provocada pelos preços internacionais do barril de petróleo. “De acordo com os dados da ANP, no período de janeiro de 2013 a julho de 2026, a margem bruta média da revenda da gasolina comum foi de 12,3%”, informa a federação.
Já óleo diesel teria registrado uma margem média bruta de comercialização ligeiramente menor do que a observada na venda de gasolina comum nas bombas.
Esse indicador histórico de rentabilidade do combustível mais utilizado pelo setor de transporte de cargas, diz, reflete a competitividade do mercado e a busca pela manutenção das margens de retorno das empresas varejistas. “No mesmo período, em relação ao óleo diesel, a margem bruta média da revenda foi de 11,6%”, calcula a entidade.
Procuradas, as distribuidoras Ipiranga (Grupo Ultra) e Raízen não quiseram comentar.
A Vibra Energia, que assumiu a BR Distribuidora, não respondeu.
Matéria publicada no portal Fecombustíveis, no dia 15/09/2026, às 06:00 (horário de Brasília)
