Governo pode demorar um ano para validar uso do B20

O setor vai precisar ter – mais – paciência se quiser chegar ao B16. Na última sexta-feira (10), o Ministério de Minas e Energia (MME) convocou uma reunião com representantes do setor de biodiesel para alinhar informações a respeito do andamento dos testes que deverão validar o uso de misturas de biodiesel maiores do que 15%. De acordo com uma fonte que participou da reunião e com documentos obtidos por BiodieselBR.com, o cronograma apresentado pelo ministério prevê que o relatório que deve dar sinal verde para novos aumentos na mistura deve ficar pronto apenas no final de março de 2027.

Isso quer dizer que, na melhor das hipóteses, o B16 vai chegar só em abril de 2027. É mais de um ano de atraso em relação ao cronograma que havia sido estabelecido no artigo 33º da Lei do Combustível do Futuro, segundo o qual o B16 deveria ter sido adotado no começo de março passado.

Acontece que, no mesmo artigo 33º do texto sancionado em outubro de 2024 também fica estabelecido que qualquer avanço da mistura em patamar maior que 15% só pode acontecer depois de “constatada sua viabilidade técnica”.

Apesar do clima amistoso que foi relatado por representantes do setor nas conversas com o Planalto a respeito da formação dos testes, o MME só instalou o subcomitê que ficaria formalmente clima amistoso no final de outubro.

Na época, o ministério já admitia publicamente que o prazo do B16 não deveria ser cumprido.

No começo do mês passado, o trabalho de validação deu um passo adiante com a formalização de uma rede de nove laboratórios a ser coordenada pelo Centro de Pesquisas Tecnológicas (CPT) da ANP. O esforço também já tem um orçamento de R$ 30 milhões, que será bancado com recursos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). O programa terá duas fases: a primeira focada em validar o uso de misturas até B20 e a segunda para o B25.

Segundo o MME, a rede só espera a definição das últimas pendências e a organização da logística de fornecimento dos mais de 1,35 mil m³ de combustíveis que deverão ser testados durante os trabalhos. A meta é que tudo esteja pronto até o final de maio.

Melhorou

No cronograma mais recente, o MME diz esperar que todos os ensaios mecânicos e físico-químicos previstos no plano de testes negociado com os diferentes elos da cadeia do diesel sejam concluídos em até oito meses. O prazo melhorou. No começo de março, o ministério previa que essa etapa poderia levar até 14 meses em função da dificuldade de conseguir os bancos de provas necessários para realizar os testes de durabilidade, desempenho e emissões dos motores necessários para a fase 1.

Então, o projeto dispunha de apenas dois bancos do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT) e estudava alternativas para aumentar o número. De acordo com a equipe do MME, com seis bancos seria possível concluir todos os ensaios em apenas quatro meses.

O problema era o preço. No mercado privado, cada banco de provas sai por R$ 150 mil ao mês. Uma conta que poderia chegar aos R$ 2,4 milhões para agregar mais quatro bancos necessários para acelerar os trabalhos. Maiores interessados, os fabricantes de biodiesel chegaram a sinalizar que poderiam cobrir parte dos custos.

Ao menos em parte, foi possível minimizar esse gargalo. O MME conseguiu localizar bancos de provas adicionais, mas não para início imediato ou dedicação exclusiva. Os testes de emissões só poderão começar em junho e os de durabilidade serão feitos a partir de agosto deste ano. Mesmo assim, foi possível reduzir em seis meses essa etapa do trabalho.

Esta, no entanto, não é a única dificuldade no caminho dos testes. O plano acordado com a Anfavea exige um total de 15 motores, alguns dos quais já bastante antigos – um deles precisa ser das fases P2 a P4 do Proconve, que vigoraram entre 1994 e 2004 – e que, portanto, não estão mais comercialmente disponíveis.

Será preciso “garimpar” motores que têm mais de 20 anos e garantir que eles cheguem aos laboratórios parceiros a tempo de não perder a janela de disponibilidade limitada dos bancos de provas. E isso sem entrar nas dificuldades logísticas de fazer vários milhares de litros de diferentes tipos de mistura entre diesel e biodiesel chegarem aos seus destinos corretos.

Segundo a fonte ouvida por BiodieselBR.com, considerando os desafios envolvidos, a previsão do MME de ter o relatório da fase 1 dos testes prontos até o final de março do ano que vem pode ser “bastante otimista”.

De qualquer forma, o cronograma final ainda está por ser definido. O MME ainda está acertando os últimos detalhes e só deve publicar a portaria na qual vai formalizar o plano de testes para a fase 1 do programa – que vai validar até o B20 –, bem como a versão definitiva do cronograma, entre o final deste mês e o começo do próximo.

Matéria publicada no portal BiodieselBR, no dia 15/04/2026, às 12:56 (horário de Brasília)