Importadores apontam risco de escassez do diesel com preço defasado, e agro já sente efeito
A defasagem no preço do diesel praticado pela Petrobras em relação às cotações internacionais, que atingiu níveis recordes, já acendeu o sinal de alerta para o abastecimento do mercado em outubro. Dados da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) mostram que, até o momento, estão previstos 150 mil metros cúbicos de diesel importado para entrega no mês que vem, quando a demanda costuma ser maior por conta da safra. O volume é significativamente inferior aos cerca de 850 mil metros cúbicos registrados em setembro. A preocupação já chegou ao agronegócio, que teme o impacto nas margens diante da perspectiva de aumento de custos.
Para a Abicom, a defasagem entre os preços internos e os valores no mercado internacional tem levado importadores a adiar compras para evitar perdas. Como o combustível adquirido no exterior chega ao país com custos superiores aos preços de venda no mercado doméstico, muitas empresas têm optado por aguardar mudanças antes de assumir novas operações.
— O cenário é preocupante, pois em setembro já tivemos redução na importação de diesel em relação aos meses anteriores. Em agosto, acabou havendo sobra na oferta, com a soma da produção e da importação entre 1,2 milhão e 1,3 milhão de metros cúbicos, permitindo que a demanda de setembro fosse atendida. Agora, em outubro, quando o consumo é ainda maior, há risco de falta de diesel — diz Sergio Araujo, presidente da Abicom.
Dados da Abicom apontam que ontem a defasagem chegou a 104% (ou R$ 2,87 por litro) entre os preços da Petrobras no mercado interno e as cotações internacionais. Na sexta-feira, o percentual havia chegado a 109%, patamar recorde. Araujo lembra que, em setembro, a Petrobras respondeu por mais da metade das importações do combustível.
À espera da subvenção
Fontes do setor afirmam que os agentes aguardam um eventual reajuste dos preços da Petrobras e a regulamentação das medidas anunciadas pelo Ministério da Fazenda para compensar parte dos custos da importação de diesel. A expectativa é que mecanismos de subvenção ou compensação tributária possam reduzir as perdas e estimular a entrada de carregamentos no país. Araujo lembra que o mercado aguarda o anúncio de nova rodada de subsídios para o diesel.
O governo trabalha para finalizar a portaria que regulamentará a nova subvenção. Na sexta-feira, foi publicada a medida provisória (MP) que autoriza subvenção adicional de R$ 1 por litro de diesel. Mas falta regulamentação adicional para entrar em vigor.
Segundo uma fonte a par das discussões, importadores aguardam a subvenção para melhorar as condições de venda do produto no mercado interno. A necessidade de subvenção ao combustível usado principalmente em caminhões e ônibus mira não só evitar a escalada nos preços locais, diante da alta do petróleo e dos problemas em refinarias por conta da guerra no Oriente Médio, mas garantir o abastecimento interno.
Trump fala em escassez
Ontem, o barril do tipo Brent (referência internacional) chegou a superar os US$ 109 com a interrupção do fluxo de um importante oleoduto da Arábia Saudita e o adiamento da reunião entre países do Golfo para tratar do fluxo no Estreito de Ormuz. Mas declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, contribuíram para frear a valorização. O barril encerrou em alta de 1,02%, a US$ 105,68.
Trump disse que o Irã deseja “fazer rapidamente um acordo”. Além disso, pressionou publicamente o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a interromper os ataques com drones contra refinarias e instalações produtoras de diesel na Rússia.
Segundo Trump, os bombardeios têm reduzido a produção russa de combustíveis, contribuindo para a escassez global de diesel e pressionando os preços internacionais. Na sexta-feira passada, o preço do galão do combustível nos EUA chegou pela primeira vez a US$ 6.
O ambiente de preocupação com o petróleo afetou as apostas em aumento de juros nos EUA. No Brasil, o dólar avançou 0,43%, a R$ 5,14, e o Ibovespa cedeu 0,91%, aos 185.501 pontos.
No Brasil, a Petrobras responde pela maior parte do abastecimento do mercado nacional, mas entre 25% e 30% do suprimento depende de importações. Sem os agentes privados, é a estatal que tem comprado diesel no exterior. A estimativa é que 80% das importações estejam sendo feitas por ela.
Atrasos na entrega
Marcos Delia, da Leggio Consultoria, lembra que setembro e outubro são meses de maior consumo de diesel por causa da safra. Segundo ele, apesar de a programação de embarcações com diesel importado estar baixa, o cenário pode mudar, já que a Petrobras tem experiência na gestão desse período de demanda mais intensa.
— O que pode ocorrer são problemas logísticos pontuais em algumas regiões, principalmente envolvendo distribuidoras menores, mas não acredito em um cenário de falta de produto. As notícias relacionadas à guerra sempre trazem mais volatilidade e incerteza para o mercado — afirma.
No Rio Grande do Sul, a Federação da Agricultura do estado (Farsul) encaminhou cartas ao Ministério de Minas e Energia e à Agência Nacional de Petróleo (ANP) em que manifesta preocupação diante de relatos de restrições e atrasos na entrega de diesel a produtores rurais, justamente no início do plantio da safra de verão.
A entidade diz que situação semelhante ocorreu entre março e abril deste ano, durante a colheita do arroz e da soja.
“Agora, o problema reaparece em momento igualmente decisivo”, diz o texto, acrescentando que o plantio tem uma janela limitada e que a falta de combustível pode atrasar a implantação das culturas, reduzir a área plantada e comprometer a produtividade.
— Estamos com suboferta do diesel S500 no estado — diz Domingos Velho Lopes, presidente da entidade, sobre compras no mercado à vista.
Em nota, a Agência Nacional do Petróleo (ANP) disse que, em contatos com a Petrobras e distribuidores que atuam no estado, os agentes informaram que as entregas ocorrem normalmente.
Para Pedro Rodrigues, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), quando a defasagem dos preços da Petrobras aumenta muito, a janela para importação se fecha:
— As empresas deixam de importar e tentam comprar o produto diretamente das refinarias da Petrobras por meio das cotas. O governo não vai deixar faltar diesel, mas o sistema fica mais pressionado.
Representantes do mercado dizem que as próximas semanas serão decisivas para definir o comportamento das importações para outubro. Há expectativa de que a oferta fique ainda mais apertada porque a Petrobras fará paradas programadas em refinarias, o que pode aumentar a necessidade de importações pela estatal.
Procurada, a Petrobras disse que acompanha de forma integrada o cenário de oferta e demanda de combustíveis. “Para setembro e outubro, está prevista a importação de diesel em volumes compatíveis com a demanda, considerando a sazonalidade típica do período, influenciada, entre outros fatores, pelo escoamento das safras”, disse. A estatal acrescenta que as entregas de diesel por suas refinarias seguem conforme o planejado e de acordo com compromissos comerciais vigentes e que está cumprindo integralmente suas obrigações junto a distribuidoras, entregando todo o volume contratado.
Matéria publicada no portal Fecombustíveis, no dia 15/09/2026, às 06:00 (horário de Brasília)
